Sillas de Souza Cezar
Sillas de Souza Cezar

Economista formado pelo Mackenzie, com graduação parcial de Gestão de Políticas Públicas na USP, com mestrado na PUC SP e doutorado na Unicamp, ambos em Educação. Foi Economista Chefe da Terna Consultoria, é professor da FAAP e consultor independente de projetos do setor público e privado nas áreas de Economia, e Educação.

Sem medo de errar, podemos entender que a busca pelas melhores respostas é a motivação central de qualquer interessado na verdade, seja lá o que isso for. Salomão pediu a Deus o poder de saber quais seriam as melhores decisões a serem tomadas ao longo de sua vida. Em certo sentido, saber o que fazer equivale saber como ser feliz. Se uma pessoa é capaz de saber sempre o que é melhor, ela estará diante da possibilidade de acertar indefinidamente. E qualquer pessoa sabe que se alguém acerta sempre, jamais terá do que reclamar. Nesse caso, o sucesso é garantido. Não seria isso uma forma suprema de felicidade?

Há uns três mil anos atrás, mais ou menos no tempo de Salomão, filósofos peripatéticos perguntavam uns aos outros o que fazer para viver melhor. Gregos mais antigos perguntavam aos oráculos que recorriam aos semideuses, que perguntavam aos deuses, que finalmente, trapaceavam na resposta por que não tinham mais ninguém para perguntar. A trapaça, diga-se, era coisa de gênio imortal, portanto não tire conclusões precipitadas. Até os famosos filósofos caíram na onda, pois a resposta reunia todos os ingredientes que uma estória precisa ter para parecer verdade: simplicidade, reconforto e impossibilidade de negociação.

Era ela: “o melhor a fazer é fazer da melhor forma possível aquilo para o qual se nasceu para fazer. ” Objetivamente, a resposta sugere uma ordem cósmica na qual cada pessoa tem uma função para a qual nasceu e o melhor que ela pode fazer é cumprir com empenho essa missão. O professor, portanto, professora, o matador mata e a mãe amamenta. Estar fora disso equivaleria a estar fora da ordem, o que causaria não só infelicidade pessoal, mas o caos. Já imaginou se a mãe matasse e o matador professorasse? Pois é… A ideia era simples, reconfortante e inegociável, e nem Aristóteles, que era Aristóteles, duvidou.

Os gregos foram precursores da civilização ocidental. Claro que antes ou depois deles houveram diversas pessoas e povos propondo respostas diferentes sobre o que venha a ser o melhor a se fazer na vida. (Se você tiver curiosidade, confira nomes como Sêneca, Espinosa, Schopenhauer e não ignore a vida de Jesus, cuja a obra é muito boa, embora o fã clube nem sempre seja). O fato é que, por sorte ou azar, criamos outros deuses e outras respostas que provavelmente serão desmascaradas ou questionadas daqui alguns anos.

Talvez a novidade seja que, diferente da Grécia antiga, hoje não há consenso. Filósofos, cientistas, religiosos e a tia do zap possuem respostas que julgam ser as melhores. E, diante de tantas alternativas, nossa sociedade vem criando e, supostamente aperfeiçoando, mecanismos para conviver com as rivalidades. Infelizmente esses mecanismos ainda não funcionam bem.

Nosso espaço é pequeno e por isso não vamos perder tempo refletindo sobre as melhores respostas para todos os problemas. Vamos nos concentrar nas melhores respostas para questões que afetem a maioria, ou seja, vamos falar de política: Qual seria a melhor forma de governo? É melhor para todos que sigamos a Deus ou a ciência? É melhor que pensemos primeiramente em todos e depois nos indivíduos ou é melhor que primeiro pensemos nos indivíduos e depois em todos?

E aqui começa o problema. Para responder adequadamente cada questão, teríamos que encontrar algo ou alguém isento e puro de coração para julgá-las. Mas quem ou o que seria capaz disso?

Para muitas pessoas, esse “algo ou alguém” seria Deus. Para outras, seria a ciência. E para um pequeno grupo, nem um, nem outro. Entretanto, do séc. VI até mais ou menos o séc. XVI, a regra geral era queimar vivo quem duvidasse das respostas divinas oferecidas pela interpretação da Igreja Católica. Na prática, essa resposta pressupunha que quem seguisse seus ensinamentos em vida, passaria a eternidade com o Criador, num paraíso onde até as ruas seriam de ouro. Simples e reconfortante! A parte inegociável estava no custo da dúvida, que era a morte numa fogueira e a eternidade em outra. Podemos dizer que a adesão era grande.

No séc. XVII, mais ou menos, uma turminha influente, por razões meio suspeitas inclusive, conseguiu colar na ciência o título de “juiz-sabe-tudo” e apostaram tudo em suas respostas. O grande problema é que dessa vez elas não eram nem simples, nem inegociáveis e muito menos reconfortantes. E isso ocorria por muitas razões, mas vale a pena destacar duas: Todas as escolhas dependeriam agora de elementos desconhecidos, e não havia um acordo sobre o que vinha a ser “o melhor”.

Estamos agora no séc. XXI e ninguém tem dúvida que nossa organização social é uma consequência de tudo que aconteceu antes, seja em termos filosóficos, científicos, religiosos, culturais, políticos, econômicos e tudo mais. E, em termos práticos, tivemos que criar jeitos de lidar com o fato de que não há algo ou alguém, medieval ou iluminista, capaz de julgar isentamente e de coração puro o que venha a ser o melhor para todos. Na política, esse jeito recebeu o nome de democracia, e não estamos dizendo que ela existe só por causa disso.

Mas não pense que ela resolveu o problema. Na verdade, o que ela permitiu é que duvidemos sem o ônus da fogueira e com isso conquistamos um certo acesso a todas ou quase todas as possibilidades de entendimentos sobre hipotéticas melhores respostas. Bonito, né? Mas não funciona tão bem quanto falam…

Seja na ordem cósmica dos gregos, na teocracia da idade média ou na ciência iluminista, a validade da melhor resposta não só dependia como ainda depende do quão compartilhável ela for. E isso explica a necessidade de serem ideias simples e reconfortantes, razão pela qual a ciência nunca foi um sucesso de público. De qualquer forma, as respostas dadas vão, digamos, melhorando na medida em que mais pessoas as defendem.

E, não é de hoje que o ser humano tem o hábito de se guiar pela cabeça dos outros. Se muita gente aceita um determinado comportamento, então é mais fácil muitas outras pessoas o aceitarem também, pois a sensação de pertencimento é irresistível. Lembremos que Jesus e Sócrates, por exemplo, não foram mortos por decisão de um ou dois chefões, mas por multidões enfurecidas que compartilhavam a ideia de que o sangue dos diferentes os redimiriam. Em outras palavras, temos que se uma ideia é defendida por muita gente, a chance de ganhar ares de verdade é alta, mesmo que seja uma ideia completamente absurda. (Terra plana, eficácia da cloroquina e mamadeiras de piroca me vêm à mente…)

A conclusão que chegamos é que não importa, de fato, se uma resposta é boa ou ruim. O que faz ela ter força é a quantidade de gente que a compartilha e defende. E um desdobramento lógico disso é a rivalidade não somente entre as ideias, mas, principalmente, entre seus defensores. Quando contingentes enormes de pessoas norteiam suas vidas por determinadas ideias, é quase impossível demovê-las. Lembremos da disposição que judeus, muçulmanos e cristão demonstraram ao longo da história em eliminar todos aqueles que não compartilhavam das “melhores respostas” de seu mesmo Deus.

Hoje, cabe a democracia organizar um pouco essa briga, onde as distintas “melhores respostas”, e resposteiros, concorrem por compartilhamento. Contudo, ela não é capaz de apontar as melhores. Na prática, ganha quem trouxer, de forma simples, o maior conforto aos corações e mentes angustiados e ávidos por respostas, não importando muito o preço a pagar.

Que conclusão de merda, diria um filósofo cínico de dois mil e quinhentos anos atrás. Pois é! Mas mesmo diante de tanta frustração e dúvidas, há um pequeno e instável bote salva-vidas que pode nos socorrer. Ele não chega a ser algo ou alguém que sirva como juiz isento ou de coração puro. Mas se admitirmos que mesmo que desconhecidas algumas respostas são melhores do que outras, que a ideia de “melhor” não é fixa e que em sentido político, nem tudo que é melhor para a maioria é melhor para todos, podemos encontrar na Educação uma forma de julgarmos, nós mesmos, as candidatas a respostas mais sábias para a vida.

E por Educação entendemos não a adoção dogmáticas de respostas religiosas ou científicas, mas sim um processo democrático no qual a simplicidade, o reconforto e a inegociabilidade de qualquer “melhor resposta” sejam questionadas sem medo do despertencimento, da desordem ou das fogueiras.