Rodolfo Ribeiro
Rodolfo Ribeiro

Doutor em administração pela FEA-USP e mestre pela PUC-SP. Professor de disciplinas de marketing na Fatec Sebrae. Desenvolve trabalhos de pesquisa e consultoria com o torcedor e futebol como principais objetos de pesquisa.

“O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.”

Esse trecho da obra de Fernando Pessoa adquiriu quase um status de alguns supostos trechos da Clarice Lispector. E dá para entender. Afinal, todo mundo tem aquele que não é o Tejo, mas passa pela sua aldeia. Quando ouvi pela primeira vez essa passagem, a primeira coisa que me veio à cabeça foi o futebol. Meu clube de coração, mais precisamente.

Explico: só o torcedor apaixonado (em maior ou menor grau) é capaz de ver alguma sofisticação técnica naquele seu zagueiro horroroso, sempre à beira do cartão vermelho e responsável por preciosos pontos perdidos ao longo do campeonato. Mesmo raciocínio para o meia quase promissor que subiu da base e não desencanta no profissional. Já me vi no estádio diversas vezes gritando para colocar tal jogador para resolver. Nunca resolveu. Mas sigo acreditando. Afinal, aquele cabeça de bagre é o Tejo da minha aldeia.

Depois dessa digressão, volto à questão do texto: uma concentração de forças (mensurada em títulos ou poder financeiro) pode matar um clube? Para responder isso, vou estruturar meus argumentos:

1: normalmente mais dinheiro quer dizer mais sucesso esportivo. Há bastante evidência disso na literatura dedicada a compreender o esporte. Tem exceções? Claro. Mas como regra geral, na média, aceita-se essa relação.

2: então o que define o sucesso esportivo é uma capacidade de arrecadação, amplamente baseada no tamanho da torcida de um clube (supondo que todos os torcedores têm renda média igual e disposição igual de gastar dinheiro com sua agremiação), aliada à capacidade de não fazer muita besteira com o dinheiro.

3: o laço emocional entre torcedor e clube é objeto de interesse na pesquisa de ciências sociais. Esse laço não é o mesmo verificado entre consumidores e marcas. Ou seja, não trocamos de clube com facilidade. Em algumas culturas, isso é até falta de caráter.

Então não preciso me preocupar com a extinção do Juventus da Mooca ou do Botafogo de Niteroi, certo? Afinal, o laço torcedor-clube sustenta o clube.

Pois é. Não é bem assim. Um dos materiais mais interessantes na explicação da relação torcedor-clube é um texto do Giulianotti (1) . Lá ele tipifica a relação do torcedor de acordo com o tipo de vínculo (tradicional ou de consumo) e a importância do clube na auto formação do indivíduo (quente ou fria, nas palavras do autor). As relações tradicionais são aquelas pautadas, principalmente, por elementos simbólicos e de pertencimento à comunidade na qual torcedores e clubes estão inseridos. Claro que torcedores “tradicionais” também consomem, mas a intensidade da relação é muito mais de dedicação do que de bolso, por assim dizer.

Essas relações são possíveis, frequentes e dominantes no século XXI?
Bom, aí vamos entrar em um campo amplo de discussão. Chame o Bauman e sua modernidade líquida e ele certamente vai jogar contra o seu (pequeno) time de coração. No que existe de compreensão sobre o elo torcedor/clube, há um componente de apropriação de vitórias que nos impulsiona nessa relação. Quando nosso time ganha, nos sentimos vencedores. Ficamos felizes. E esse processo é um dos alicerces formadores da nossa relação. Conheço um pai que mentia sobre os jogos para seus filhos. Falava que a Portuguesa estava jogando contra o Chelsea, quando na verdade estava jogando contra o Marília. Converteu os filhos.

A urbanização crescente quebrou, ainda que parcialmente, o vínculo local entre comunidade/clube. E a ampla divulgação de conteúdo esportivo nos meios possíveis (TV, internet, etc) deu a sensação de que o Tejo pode ser seu, mesmo não estando mais na sua aldeia. Basta dizer que é seu e que você sempre esteve lá, mesmo que distante. Já que é para torcer para alguém, que seja para o “pica das galáxias”, não é mesmo? Pois é. Assim a relação deixa de ter um componente local e passa a ser digital/desenraizada. Há algumas pesquisas mapeando crianças brasileiras torcendo para clubes europeus (2) . O fenômeno deve ser mundial.

Aí chegamos em abril de 2021 e somos surpreendidos (será que fomos mesmo?) com a notícia de que os grandes clubes europeus ensaiam uma organização paralela de competição, criando um “clubinho” que sempre estará lá e que ainda vai controlar quem terá a pulseirinha VIP eventualmente (3). Na justificativa para tal ação, a declaração de que a pandemia de covid-19 os afetou profundamente e precisam de novas formas de arrecadação para sobreviver. Rapaz…

Em economia/administração, há um razoável consenso de que a estrutura de um setor é importante na definição dos resultados empresarias (quanto menos competidores, maiores as chances de ganhos elevados). Essa estrutura influencia a conduta das empresas. É o paradigma ECP: estrutura-conduta-desempenho. Assim, a conduta das empresas (agressividade competitiva) é resultado da estrutura na qual se enquadra. Mercados competitivos pressionam as empresas.

O paralelo com o esporte é óbvio: em ligas competitivas, mais equilibradas, há um nivelamento dos investimentos e os resultados são disputados. Em ligas concentradas, os mesmos estão sempre lá disputando algo. Há casos emblemáticos de ligas muito concentradas no futebol: Portugal, Espanha, Holanda, Bélgica, Alemanha, etc. Essas ligas apresentam sempre os mesmos protagonistas em seu top4. Outras ligas têm caminhado para concentração crescente: Inglaterra e França, por exemplo (4).

Às instituições que organizam o futebol sempre coube o papel de estruturar a competição: estabelecer parâmetros que distribuem (ou não) o dinheiro e, consequentemente, o resultado esportivo. As especificidades do esporte sempre driblaram esporadicamente essa regra, mas a crescente concentração observada nos faz pensar que, no futebol, os exemplos serão cada vez mais raros caso a estrutura não tenha barreiras à concentração.

Respondendo a pergunta inicial: a concentração vai matar seu clube do coração? Olha, a omissão em fazer esforços estruturantes não vai matar APENAS seu clube do coração. Sem querer parecer piegas, vai acabar matando o seu coração. De uma relação de pura entrega à um clube, é capaz que rumemos para um Tinder do futebol, no qual convenientemente daremos like seguindo algum critério inconsciente e egoísta.

(1) Giulianotti, R. (2002). Supporters, followers, fans, and flaneurs: A taxonomy of spectator identities in football. Journal of sport and social issues, 26(1), 25-46.
(2) https://www.uol/esporte/especiais/ameaca-gringa.htm#eles-estao-entre-nos
(3) https://valor.globo.com/politica/noticia/2021/04/19/grupo-de-12-grandes-clubes-da-europa-anuncia-criao-de-superliga-e-rompe-com-uefa.ghtml
(4) https://globoesporte.globo.com/blogs/blog-do-rodrigo-capelo/post/2020/04/29/futebol-brasileiro-ainda-e-mais-equilibrado-do-que-europeu-mas-esta-cada-vez-mais-concentrado-em-poucos-clubes-indica-estudo.ghtml