Rodolfo Ribeiro
Rodolfo Ribeiro

Doutor em administração pela FEA-USP e mestre pela PUC-SP. Professor de disciplinas de marketing na Fatec Sebrae. Desenvolve trabalhos de pesquisa e consultoria com o torcedor e futebol como principais objetos de pesquisa.

Estamos perto do começo das olimpíadas. Quantas medalhas o Brasil vai ter? Encontrei uma previsão na internet de algo perto de 20 medalhas. O esporte que mais vai contribuir para isso? Iatismo? Vôlei? Judô? Não. Skate. E por que viramos protagonistas nesse esporte? Para responder isso, vou propor uma hipótese ousada: a hegemonia do Brasil no skate tem relação com a queda de seu protagonismo no futebol.

Primeiro, os fatos:

1: queda do futebol brasileiro: a seleção brasileira só pode ser campeã mundial de novo após 20 anos (que venha o Hexa no Catar 2022!!!). Intervalo maior só no jejum 70-94. Nesse período, tivemos 4 títulos mundiais de clubes (81, 83, 92 e 93). No jejum atual, os clubes brasileiros acumulam também 4 conquistas (2000, 2005, 2006 e 2012), 3 para os “puristas” que não consideram o título de 2000 do Corinthians. Até aqui, empate. Porém, as conquistas clubistas do jejum 70-94 foram, em sua maioria, de times memoráveis. As conquistas recentes foram todas no sufoco, com goleiros sendo premiados como melhores em campo. Então tomo a liberdade de concluir que o futebol brasileiro perdeu pelo menos protagonismo clubístico;

2: a frota de veículos tem crescido muito no país. Em 2006, eram cerca de 0,24 veículos/pessoa. Em 2016, cerca de 0,47 veículos/pessoa1 . Se você piscar na rua, tropeça em uma SUV. Ou seja, mais veículos trafegando nas ruas, tanto em números absolutos quanto relativos.

3: em uma década, o número de apartamentos cresceu em taxa muito superior ao número de casas (enquanto o total de domicílios cresceu 28%, o número de apartamentos aumentou 43%)2.

4: viramos uma potência no skate. Nos últimos 20 anos (mesmo hiato de títulos mundiais no futebol), tivemos Sandro Dias, Pedro Barros, Pâmela Rosa, Leticia Bufoni e, claro, Bob Burnquist. Temos até o poder público “investindo na formação” de novos atletas da modalidade, com a construção de pistas públicas.

5: não coloquei esse fato no título da coluna, porque ficaria muito grande. Segundo o censo do IBGE (alô alô, nada de cortar censo! Sem ele não consigo escrever essas sandices!), há uma tendência de queda no número de filhos por mulher no país. Isso tem um número imenso de explicações. Mas fiquemos apenas com o fato, ok?

Esses fatos estão relacionados?

Vou exercer aqui alguns raciocínios intuitivos (me perdoem), mas com alguma lógica. São minhas hipóteses que conectam os fatos descritos.

I. os novos praticantes do futebol eram formados, inicialmente, nos clássicos de rua. Os confrontos “camisa x sem camisa” ou o mais tumultuado “rua de baixo x rua de cima” foram os primeiros duelos nos quais os futuros craques brasileiros desfilaram sua habilidade. Lembra da cena viralizada do Gabriel Jesus pintando a rua em uma longínqua Copa quando criança? Pois é. Lanço a hipótese de que esses confrontos são cada vez mais escassos. Ô motivo? Uma combinação dos fatos #2 e #3. Mais carros nas ruas as tornaram menos propícias para a prática lúdica do esporte na rua. Além disso, a crescente vida de condomínio nos enclausura. Há até o argumento de que os condomínios possuem quadras. Até aceito em parte esse contraponto, mas sabe como é: para desenvolver talento, é preciso desafio (rs). Jogar sempre contra o mesmo cabeça de bagre do bloco A não é lá muito bom para a formação do boleiro. E, para piorar, o fato #5 causa uma redução do número de participantes potenciais. Ou seja, temos aqui forças que diminuem: a frequência dos confrontos (carros & condomínios) e a dificuldade na formação dos times (condomínios e redução da fertilidade).

II. os fatos #3 e #5 geram uma geração jovem um pouco mais solitária e enclausurada. Portanto, práticas individuais e não coletivas passam a ser mais fáceis de serem praticadas. Vamos colocar mais um argumento a favor disso? Preços! Se quiser praticar futebol apenas com o calçado apropriado, há um custo considerável. E são altamente perecíveis quando nossos pés estão em fase de crescimento. Marcas populares, em promoção, fornecem pares a partir de R$ 50. Digitei skate na Olx e apareceram opções por R$ 100. Ou seja: comprar algo perecível e que precisa de interação, cada vez mais rara, por R$ 50 ou comprar algo que dura e que não possui restrições de uso por R$ 100? O enclausuramento também fomentou outras práticas, como os jogos virtuais. Ou seja, os e-sports ocuparem a grade de programação na TV deveriam agradecer, pelo menos um pouco, às construtoras de prédios e aos fabricantes de anticoncepcionais.

Então meu argumento é:

A previsão/expectativa de medalhas olímpicas no skate é fruto de uma série de fatores sociais, como urbanização, práticas de socialização e tecnologia. O consumo de uma série de produtos tem sofrido esse efeito. As marcas de instrumentos musicais têm encontrado dificuldade para vender seus produtos aos jovens nascidos a partir dos anos 20003.

Mas outras sociedades também passam por esse processo, certo? Verdade. A urbanização, queda do número de filhos e a disseminação tecnológica são fatores de abrangência mundial, diferente em maior ou menor nível de acordo com o estágio de desenvolvimento econômico de um país. Então por que o Brasil virou potência no skate e não em outros esportes olímpicos?

Deixo minha última hipótese:

III. os demais esportes olímpicos não são de prática tão “barata” quanto o skate. E demandam equipamentos complexos para a prática e desenvolvimento do atleta. A modalidade street (rua) dá a noção de como o próprio ambiente das cidades é o equipamento para a prática do esporte.

Então termos nos tornado uma potência no skate pode dizer mais sobre nossa falta de recursos do que uma análise ufanista de que aqui o talento floresce pode sugerir.

1https://cidades.ibge.gov.br/brasil/pesquisa/22/28120
2https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2011/04/29/em-uma-decada-numero-de-moradias-aumenta-mais-que-o-dobro-que-o-crescimento-da-populacao.htm
3https://economia.uol.com.br/noticias/bloomberg/2016/11/21/fender-implora-aos-clientes-que-nao-deixem-de-tocar-guitarra.htm