Marília Carolina Barbosa de Souza Pimenta
Marília Carolina Barbosa de Souza Pimenta

Doutora em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (2016). Docente no Centro Universitário FECAP-SP. Coordenadora do curso de graduação em Relações Internacionais e da pós-graduação em Negócios Internacionais e coordenadora do Comitê de Internacionalização. É sócia da Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI) e da International Studies Association (ISA). Na ABRI é coordenadora da Área Temática: Ensino, Pesquisa e Extensão.

A eclosão da pandemia evidenciou as diferenças de desenvolvimento econômico entre os países. Economias mais desenvolvidas se organizaram rapidamente e já se beneficiam do retorno a algo parecido com o que era a normalidade. Países emergentes, com menor capacidade de mobilização e tecnologia, seguem pressionados por dificuldades na obtenção das vacinas, a imunização da população e as medidas de retomada da economia. Outros países de menor desenvolvimento relativo, principalmente aqueles do continente africano, tem a crise sanitária transformada em uma crise humanitária.

Os números do Fundo Monetário Internacional (FMI) ilustram a diferença. Logo que o vírus se espalhou para o mundo em abril de 2020, o governo de Israel anunciou um pacote de US$ 25 bilhões (6,2% do PIB) com o objetivo de garantir alívio financeiro para as empresas (50%), seguridade social (25%) e gastos com saúde (13%). O pacote também continha recursos para a digitalização e modernização da infraestrutura digital de pequenas e médias empresas. Ao longo de 2020, as autoridades israelenses aprovaram emendas e novos fundos que totalizaram US$ 64 bilhões, incluindo programas de transferência de renda no valor de US$ 2 bilhões para famílias de baixa renda. O governo de Israel buscou ativamente a compra de vacinas junto à fabricante Pfizer, o que permitiu que a imunização se iniciasse logo em dezembro de 2020. Após um ano da eclosão da pandemia, o país conta com mais de 60% da população vacinada e uma expectativa de crescimento de 5% para 2021.

O Brasil gastou o equivalente a 12% do PIB no combate a pandemia desde que o Congresso declarou calamidade pública em março de 2020. Os recursos foram destinados em sua maioria para o auxílio emergencial, que garantiu uma renda de R$ 600 por mês até o final daquele ano. A medida foi positiva para sustentar a atividade do varejo e a segurança alimentar, especialmente daqueles indivíduos considerados “invisíveis” para os serviços públicos. Porém, a disputa política sobre os efeitos do distanciamento social e a utilização da vacina afastaram o país de uma retomada mais acelerada da normalidade. O Brasil enfrentou uma segunda onda de contágio no primeiro trimestre de 2021, que elevou o número de mortes para 409 mil ao final do mês de abril. A imunização avança lentamente devido às dificuldades de produção local e à negociação tardia com os grandes laboratórios.

Os países com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) abaixo de 0,5 pontos não conseguiram responder à mesma altura. O governo de Moçambique optou por solicitar ajuda internacional no valor de US$ 700 milhões e reduziu a tributação sobre valor adicionado. A pandemia reforçou a pressão sobre as contas públicas do país, que haviam sido esgotadas pela passagem do ciclone Idai em março de 2019. A Etiópia anunciou um pacote de gastos com saúde equivalente a 0.1% do PIB, que em 2019 era de US$ 95 bilhões. Porém, o segundo país mais populoso do continente africano passa por mais um conflito armado. O prêmio Nobel da Paz e primeiro-ministro, Abiy Ahmed Ali, iniciou uma ofensiva militar contra a Frente de Libertação Popular da região do Tigray em novembro de 2020. Os confrontos resultantes geraram um deslocamento de aproximadamente 2,3 milhões de refugiados. Assim, o combate à pandemia ficou em segundo plano. Moçambique e Etiópia vacinaram menos de 0,2% da sua população até março de 2021.

O anúncio recente dos Estados Unidos em apoiar a quebra temporária das patentes pode contribuir para a redução da desigualdade vacinal entre os países. Após o consentimento dos americanos, a solicitação colocada pela África do Sul e Índia na Organização Mundial do Comércio (OMC) deve ganhar tração junto a outros parceiros desenvolvidos, especialmente Japão e União Europeia. No entanto, a medida não deve ser suficiente. Os países com capacidade tecnológica de desenvolvimento e aplicação da vacina seguirão na frente da retomada econômica. O domínio da vacina permite que as atividades econômicas se normalizem mais rápido, o que deve alterar os fluxos de investimentos que outrora se direcionariam para os mercados emergentes. Caso ocorram, os ajustes fiscais para o equilíbrio das contas exauridas pelo combate à pandemia devem resultar em taxas de juros maiores. Assim, países emergentes devem testemunhar uma contração no consumo e aprofundamento do desemprego.

Outro fator que deve contribuir para a geopolítica da vacina é o surgimento dos passaportes COVID-19. Os países desenvolvidos, especialmente aqueles da União Europeia, discutem quais vacinas são elegíveis para lastrear um documento internacional de imunização. O caráter geopolítico dessa decisão é claro. Pessoas originárias de países emergentes, que encontraram uma saída para a imunização em determinadas vacinas (CoronaVac, por exemplo), podem ter seu acesso negado aos grandes centros europeus. O desenvolvimento do passaporte traz outras questões sobre ética e xenofobia. O que se tem claro é justamente a importância que uma agulha acoplada a uma seringa ganhou nas principais casas diplomáticas do mundo.