Sérgio Tomioka
Sérgio Tomioka

Sérgio Tomioka é filósofo, professor precarizado, vegano … e taurino.

Estou com um problema aqui comigo. Preciso me apresentar, uma vez que esse é um texto inaugural, em um meio inaugural, de uma coisa que ainda não fiz na vida, que é escrever, publicamente, para pessoas que não conheço. Já escrevi e escrevo com regularidade, claro. Mas escrever aulas, argumentos, dissertações e artigos têm, sempre, um público específico (no caso da filosofia, um público que não chega a ser enorme…). Alunos, examinadores, bancas, são sempre famigerados, apesar de pessoalmente desconhecidos. O meu problema é, então, o de me definir, para apresentar em mim aquilo que possa interessar a vocês. Pois que todo texto esconde e revela aquilo que queremos esconder e revelar. Se eu não quero me esconder muito, nem me revelar completamente, caberia dizer, pelo menos, sobre o que pretendo escrever nesse espaço, sem, entretanto, apelar para o curriculum lattes. Vou usar o truque do professor, número 3842/3: voltar à definição.

“Fatos e argumentos” remete a um célebre dito popular que diz que contra fatos não há argumentos. Para voltar à minha de-formação profissional, esse dito me lembra da posição de Wittgenstein, o primeiro, que escrevia que seria preciso calar sobre tudo aquilo que não se pode falar. Muito bem, é exatamente sobre isso que pretendo escrever. Sobre tudo aquilo que o primeiro Wittgenstein dizia ser necessário calar, acreditando (como acredito) que sobre aquilo que não se pode falar, seria preciso…falar! É o que a filosofia faz, sobretudo a filosofia de Hegel, a quem devo boa parte de meus pensamentos não-pedestres. Entretanto, o que é isso tudo sobre o que eu pretendo falar? Tudo aquilo que não é material. Tudo aquilo que não é fato e boa parte das coisas que são, quando muito, um argumento. Eventualmente, aqui e ali, aludirei a fatos, pois às vezes os fatos são necessários. Necessários, sobretudo na orientação de tudo o que não é fato, para que pensamento e reflexão não se transformem em fantasia e paranoia.

Como falar sobre aquilo que a linguagem não explica? Para isso vou contar um insight, mas que uso como se fosse meu, que ouvi de um professor de letras (o Paulo Martins), que na minha época de graduação conta um caso que mostra um dos vários modos de se falar sobre o que não conseguimos falar: o tal professor me explicava como entendera o sentido do termo metáfora. Um colega professor tinha ido à Grécia em viagem e, de repente, assim, no meio da rua deu de cara com um caminhão estampado com a palavra, em letras garrafais: Metáfora! Como bom professor de letras e intrigado com aquela visão do mundo das letras consubstanciado em um comezinho caminhão, não se conteve e teve que investigar a fundo qual era o significado daquilo. Ao chegar perto, percebeu que era um caminhão de mudanças! Metáfora: aquilo que leva algo de um lugar para o outro. Aquela trama pela qual falamos sobre aquilo que é impossível de ser dito diretamente.

Essa não é, entretanto, a única maneira de falar sobre o que se deveria calar ou sobre aqueles argumentos que resistem aos fatos mais evidentes. O que está para além do fato? A metafísica, que significa tudo aquilo que está além da matéria e dos fatos, e que só se desvela, se apresenta, pela tentativa de falar sobre o inefável. Sentimentos e emoções, também são irredutíveis aos fatos e qualquer um que já tenha visitado um psicanalista sabe a importância das metáforas para exprimir estados de espírito, de alma ou mesmo do corpo. Não que eu seja um profundo pesquisador da alma humana e dos meandros pelos quais os sentimentos e ideias espirituais trafegam. Não sou. Sou homem, primogênito, oriental e taurino (com ascendente em touro!). Isso já diz algo sobre minha natureza. Que sou teimoso, que adoro comida, que sou materialista, que sou machista e que tenho imensa dificuldade de lidar com críticas.

Assim, essa minha coluna será um esforço para fazer o contrário do que me inclina a minha natureza: falar sobre o que não é material, tentando ser altruísta e ouvir as posições e argumentos alheios, aceitando que haverá críticas, com toda certeza. A comida, bem dessa parte da minha natureza ainda não estou disposto a abdicar, mesmo porque o tema está dentro da circunscrição de conteúdos que acabei de fazer, assim, nas entrelinhas: tudo o que podemos chamar de cultura; ou para usar um jargão marxista, aquilo que os comentadores estruturalistas de Marx chamam de ‘superestrutura’. Tudo, menos as relações econômicas. Isso não é uma promessa, mas uma carta de intenções.

Convém enunciar as minhas intenções de modo que possa ser cobrado depois por elas: ficar na realidade, ser coerente e sair do clã, como enunciou um médico próximo da minha família como sendo as metas individuais do milênio. Até agora, devo anunciar que tenho falhado vergonhosamente. As três metas são muito mais difíceis do que eu imaginei quando ouvi os lemas pela primeira vez. Ficar na realidade não é o mesmo que ater-se unicamente aos fatos. Ficar na realidade compõe-se de todos os sentimentos e intuições que fazem parte de nós e que se completam com os fatos (e com a história dos fatos, com o presente e com as predições e expectativas de futuro). Além disso, nossos sentimentos, crus, de nada nos servem, a não ser que sejamos capazes de transformá-los em ações presentes coerentes com nossas ideias e máximas. Por fim, sair do clã não me parece querer dizer apenas deixar nossa família nuclear, mas deixar, em nós, o que nos deixa apegados a ela. No meu caso, deixar de ser japonês, taurino, primogênito, etc. Enunciando assim minhas intenções, faço meu o ideal político kantiano, idealista e iluminista, segundo o qual, se eu não posso enunciar minhas intenções em voz alta sem causar a oposição de todos, então minha máxima é injusta. Isto é, toda intenção anunciada tem por vantagem o fato de poder ser limitada por outras intenções e desejos.

Enunciadas então minhas intenções, usemos então a estratégia de professor número 50139/8: voltemos à definição; a disjunção entre fatos e argumentos pode ser interpretada da mais de uma maneira. Quase positivista, como se um fato pudesse se contrapor a argumentos sem que ele mesmo fosse parte de um argumento (o que é difícil de aceitar). Mas também pode ser interpretada como se o recurso ao fato fosse, como mencionei acima, um recurso às coisas mesmas, uma garantia de que não somos psicóticos, um teste de realidade, que nos ajuda a distinguir verdade e fantasia. Para falar sobre isso, já começo essa jornada de textos quebrando uma das minhas intenções: não falar da infra-estrutura, da economia.

Sem justificativas e direto ao ponto: não está funcionando. Se qualquer economista isento aceitasse fazer um teste simples de realidade, teria que chegar à mesma conclusão: não está funcionando. As teorias podem argumentar das mais diversas maneiras, mas o fato é que o PIB ainda não recuperou a queda de 2014 e a inflação está quase descontrolada e com os juros fora da meta: não está funcionando. A grande discussão econômica do fim do século vinte, sobre a inflação, pode ser ignorada frente ao fato de hoje: as teorias e os argumentos clássicos não estão funcionando. O resto são justificativas e porquês. Aliás, em geral, o governo não está funcionando, a política não está funcionando, a sociedade não está funcionando e o combate à pandemia não está funcionando.

Voltando aos fatos e aos argumentos, duas coisas ainda me impressionam, aqui na Ilha da Fantasia de Vera Cruz. Primeiro, por que o ministro Guedes não coloca seus argumentos frente aos fatos. Segundo, que ainda acreditem que o presidente não mande na economia (e no meio ambiente, e na saúde, etc.), e que por isso não seja responsabilizável por tudo o que não está funcionando. A fantasia criada pela maior parte da sociedade brasileira é que se podia acreditar no atual presidente, por ser ele transparente. Essa transparência é apenas mais uma fantasia que boa parte da sociedade ainda custa a enfrentar. Talvez por medo (de perder uma posição social conquistada), talvez por vergonha (de ter participado do disparate de 2018), ou por orgulho. Ou por estar presa a uma visão de mundo arcaica e fantasiosa, ou por ter embarcado nessa fantasia, ingenuamente. Ou por interesse mesmo, sem mais.

A verdade é que estamos imersos na mentira coletiva propagada por defensores dos bons costumes, detratores da verdade e milicianos trasimáquicos (que fazem uma nova interpretação do dito que investigamos: já que contra fatos não há argumentos, melhor fazer os fatos conforme eu queira, com a minha força, do que esgrimir argumentos, através dos quais posso perder as contendas da vida), todos coordenados por um líder, príncipe das mentiras e com o rei na barriga. Hannah Arendt, ao analisar o 3o Reich alemão descrevia como estrutural do sistema nazista a mentira, a falsidade e a ignorância às instituições. O líder (Führer) podia jurar pela constituição, pois não tinha (como não teve) nenhuma intenção de cumpri-la. Podia fazer acordos com os outros países, pois não cumpriria nenhum deles. Contava a história do povo judeu como queria, pois não tinha nenhum compromisso com algum teste de realidade. Tal fantasia foi poderosa a ponto de por em risco a sociedade global com uma guerra de proporções catastróficas. O que a autora alemã insistia em descrever é o fato de que a mentira é um projeto, que se expressa igualmente na propaganda e na arquitetura de uma sociedade que deve aceitar a fantasia do líder, que é também a história mítica do movimento nacional-socialista. Vivemos situação semelhante, à beira da catástrofe global produzida pelo projeto de poder e de sociedade fantasioso de um líder que se construiu como mito para tentar amealhar um contingente de seguidores que obedeça a ele e a sua fantasia, fundadora de uma história de mentira, como a história da Ilha de Vera Cruz ou da Terra plana. E ainda dizem que contra fatos não há argumentos.

O fato é que, hoje, o Brasil não funciona e não se ouve a mea culpa de quem aceitou o risco de comprar essa fantasia. Não porque isso satisfaça a mim ou ao Papa, mas por que o único modo de sair da fantasia é aceitar a realidade, pessoalmente dolorida e dolorosa como ela se faça. A questão é que precisamos urgentemente largar dessa egrégora fantasiosa, dessa força mental e espiritual de um grupo de pessoas que acredita tão profundamente em sua estória que pretende transformá-la em realidade à força, qual Trasímaco frente a Sócrates.

Claro, como todo professor, desviei-me do meu assunto, que nem chegava a ser um argumento, e acabei sucumbindo aos fatos. Que assim seja, desde que os fatos sejam, também, realidade.