Sérgio Tomioka
Sérgio Tomioka

Sérgio Tomioka é filósofo, professor precarizado, vegano … e taurino.

Hoje é dia 20 de junho. Um dia depois do J19, dia de manifestações por todo o país contra o presidente Bolsonaro e pela vacinação de toda a população. Não por falta de vontade, mas não fui à manifestação. Estou trancado em casa há um ano e meio, tenho parentes que não podem se expor ao risco, não fui à manifestação. Deparei-me, hoje, um dia depois dos protestos por todo o país, com um diálogo algo insólito em uma rede social: Pedia, uma amiga de rede, uma explicação, se havia ainda alguém que defendia o maldito presidente, pois ela queria entender e dialogar, em paz, frise-se, com essa pessoa.

Fiquei realmente tocado e intrigado com o pedido. Intrigado: Por que falar qualquer coisa com um bolsonarista convicto e porque algum desses seres se disporia a travar tal diálogo. Tocado: Estava ali uma pessoa muito melhor do que eu, pois se propunha a explicar e a ouvir, a travar um diálogo com alguém que certamente tem se recusado constantemente ao diálogo, pois apoiador de um líder que não respeita a verdade nem o diálogo em nenhum grau.

Qual não foi minha surpresa ao rolar a tela para baixo e perceber que minha amiga havia angariado uma dialogante, que se dispôs a perder minutos de seu dia para explicar que a culpa não era do tal líder, que a pandemia era uma fatalidade, que a culpa era dos milhares de políticos profissionais que grassavam ainda, como gafanhotos, pela vida nacional. Nem me dei ao trabalho de olhar uma possível resposta, se é que houve. Fiquei perdido nas possíveis respostas à indagação: Por que os minions ainda defendem o seu malvado favorito? Tanto mais que a resposta minionesca pareceu-me algo sincera.

Dois dias antes, acompanhando um desses grupos de redes sociais deparei-me com um ex-colega meu de colégio que repetia uma campanha de solidariedade (?) à figura insólita de Nise Yamaguchi, médica e negacionista de plantão. Tirando do cálculo a provocação e o cinismo da postagem em questão (onde a sinceridade não habitava), voltou à minha cabeça a indagação do parágrafo anterior, de uma outra forma: O que eu tinha feito para merecer tamanho castigo que é morar no Brasil no meio de uma pandemia, com os atuais chefes do executivo e ainda com uma parcela da população que os defendem com unhas, dentes e hipocrisia? Ou seja, qual é a minha culpa nisso tudo?

Desde já, que fique claro meu diagnóstico desse governo, feito quando ainda estava para ser um futuro governo. Para todos os amigos, conhecidos, leitores e eventuais seguidores de redes sociais (se é que os há), deixei clara a semelhança que julgo haver entre o candidato vencedor, o movimento que o elegeu e o movimento nacional-socialista da Alemanha do início do século vinte, mais conhecido como nazismo. Baseando-me principalmente nas descrições e na farta documentação amealhada por Hannah Arendt no seu “Origens do Totalitarismo”, atrevi-me a fazer a comparação. Os principais elementos presentes desde antes da campanha de 2018 eram o uso da mentira como prática corriqueira, dentro disso o desprezo às leis vigentes, a criação de um corpo paralelo de funcionamento do movimento, seja durante a campanha, seja posteriormente, durante o governo.

Esse gabinete paralelo, também chamado de gabinete do ódio é quase a reprodução fiel do método de formação das instituições nacionais-socialistas que é descrito no livro da filósofa alemã, quando detalha a formação das SA (Sturmabteilung- destacamento da tempestade), das SS (Schutzstaffel- tropa de proteção) e de outros poderes paralelos dentro do movimento nazista e depois dentro do governo hitlerista. Outros indícios mais evidentes são o militarismo, o apreço pela ditadura e a inimizade às práticas democráticas além do ódio às organizações de esquerda. Basta lembrar dos primeiros atos do governo que promovem o desmonte de quase todos os conselhos, comitês, comissões e grupos que tinham como intenção o aprofundamento da democracia.

Voltemos ao cerne do texto, sem maiores digressões e apostos, agora. O mea culpa a que me propus, não é o mea culpa pedido pelos conservadores aos partidários do PT. Nem é o mea culpa que eu mesmo acho que esses mesmos conservadores deveriam fazer dado o golpe jurídico-parlamentar que patrocinaram e que teve como consequência o atual governo vergonhoso e desavergonhado. A minha culpa é diferente. Sou culpado de ser como o Bolsonaro. Não na superfície, mas na mais obscura e profunda cavidade da minha alma. Bem escondido, virando à direita. Essa conclusão me chegou por duas vias. Em primeiro lugar, porque faço parte do mesmo povo que elegeu como seu Führer, seu líder, esse elemento que aí está.

Em segundo lugar porque me foi assinalado que em algumas atitudes sou hipócrita como ele, isto é, que não faço o que digo que vou fazer ou o que prometi. Disseram-me que sou mentiroso, machista, algo homofóbico; que sou ditatorial e que não ouço os outros; que não peço desculpas e que sou mal-agradecido.

Então, tal qual o Dr. Simão Bacamarte, do Alienista de Machado de Assis, a única conclusão a que posso chegar é … Eu sou o Bolsonaro. Não no sentido de que eu vote nele, claro que não. Nem no sentido de que eu concorde com ele, também não. Nem mesmo no sentido daqueles que acham políticos todos iguais, ou daqueles que acham que o segundo turno da eleição de 2018 foi uma escolha difícil. Sobre isso, um aposto, pequeno, à Machado de Assis. Em 2018 estava tentando convencer um amigo liberal (ainda acho que ele é liberal nos modos, mas não tão liberal na economia, apesar do discurso panfletário) de que não votar era um risco tão grande quanto votar no Antimessias… Pense no risco por que passarão seus amigos, colegas, alunos, que tem costumes liberais, que são da comunidade LGBTQI+, ou simpatizantes, ou negros, ou maconhistas, ou malucos, etc..

Convenci-o (não que ele precisasse de convencimento), mas cheguei à mesma questão que me trouxe ao mea culpa de hoje: por que pessoas minimamente instruídas (como meus colegas de colégio e de faculdade, de antes e de agora) aceitaram lavar as mãos e não votar contra esse descalabro de mortes e desgraças anunciadas? Novamente Dr. Bacamarte me previne, na minha cabeça: Só há uma única resposta. Você é igual a eles.

Seguindo a trilha positivista do Dr. Alienista, cumpre aceitar a conclusão e cientificamente pensar nos motivos que me fazem ser igual a essa gente e ao líder desse gado todo. Sim, porque está cientificamente provado que se isentar, como fizeram FHC, Huck, Bial, Ju e companhia global, folhal e estadual, foi o mesmo que eleger a catástrofe, e fazer parte da manada. Voltando novamente ao tema, há várias hipóteses a serem consideradas. Vamos a elas.

A primeira é que eu sou mesmo um canalha, e intimamente me comprazo com as malfeitorias do presidente. Sou moralmente desprezível. Difícil de engolir, mas vamos adiante. Outra, uma derivação da primeira, é que há um certo gosto pelo monstruoso, pelo mal, pelo deslocado e como se esse unheimlich estivesse por trás de um desejo de morte e de vontade de potência, isso é de realização de nossos desejos mais monstruosos. Não sou especialista em Freud, mas fico me perguntando o quanto o nazismo espelhava o reconhecimento freudiano pelo desconfortável dentro e fora de nós.

A terceira hipótese é a da sociabilidade tal como ela se fez no Brasil. Todos nós brasileiros, independentemente das diferenças étnicas, religiosas, de gênero ou de classe, todos compartilhamos uma herança comum, que vem sendo revisitada e replicada sempre sob novas vestes: a escravidão. Nesse teatro escravista, às vezes somos senhores de escravos, às vezes capitães do mato, às vezes jagunços, às vezes coronéis, às vezes milicianos, juízes, intelectuais, senadores, deputados, ditadores, militares, banqueiros ou empresários. E escravos, milhões de escravos, operários, trabalhadores e MEIs, precarizados e serviçais. Esses personagens estão tão impregnados na história da país que nem mesmo com muito esforço conseguimos nos livrar deles nem da encenação em que aparecem.

A escravidão da cana é muito diferente da escravidão do ouro. Que é muito diferente da escravidão do café, que é muito diferente da escravidão dos imigrantes, que é muito diferente da escravidão imposta pela industrialização, que é muito diferente da escravidão que nos impõe nossas relações patrimonialistas e patriarcais de parentesco, ontem e hoje, que é muito diferente da escravidão ditada por nossas relações sociais de compadrio e de jagunçagem.

Apesar de diferentes, existe algo como uma condição de possibilidade transcendental da nossa brasilidade. Como se, para sermos brasileiros, precisássemos aceitar nossa parte miliciana, violenta, escravista, jagunça. Desde o berço, justificados que estamos em nossa própria desigualdade miserável: não há outra saída; a circunstância nos impõe. No começo, trata-se de passar um pano em um pecadilho ou outro (circunstância muito difícil a escolha de 2018!), mas logo é meio milhão de mortos, e já não podemos nos esconder de nós mesmos. Vou dar um exemplo. Sou filho de políticos e meu nome é dado conforme o de um líder político: compadrio. Do tipo aos amigos tudo, aos inimigos a lei. Aparentemente menos violenta que a franqueza violência miliciana, herança da ditadura e de Trasímaco.

Mudemos de hipótese. Não deve ser isso. Talvez sejam os preceitos metafísicos amplamente aceitos nesse século XXI, nessa Era de Aquário, de que somos todos feitos da mesma matéria, física e espiritual. O que nos faz de todos, um só e mesmo organismo muito singular (viva Espinosa), que compartilhamos essências, vivências e existências, de tal forma que a existência de uma Besta na principal posição da República só se explica por nossa aceitação espiritual de todas as besteiras que ele faz. É isso. Só pode ser isso.

É a metafísica, idiota! Não pode ser a nossa vontade de querer ganhar sozinhos, sem repartir com ninguém, salvando nossa pele da tragédia orestiana que nos ameaça a todos. Não pode ser isso. Deve ser a mesma coisa que explica o Rock na Grã-Bretanha e o Futebol por aqui: é a água!

1Em termos literais a tradução do alemão evoca inquietude ou inquietamento. O termo ficou conhecido na abordagem freudiana, ao associar desconforto diante de situações que seriam familiares ou conhecidas.