Marcelo Balloti Monteiro
Marcelo Balloti Monteiro

Economista formado pela PUC-SP, mestre em Economia Política pela PUC-SP, doutor em Ciências Sociais pela UNESP. Docente na Universidade Anhembi-Morumbi desde 2019 e analista setorial na Lafis Consultoria. Pesquisador nas áreas de Macroeconomia e Economia Internacional com foco em União Europeia.

A pandemia do novo Coronavírus despertou um sentimento comum à maioria dos cidadãos espalhados pelo mundo: temos a sensação de que estamos vivendo em março de 2020, mês no qual a OMS decretou pandemia mundial. Na política brasileira, o sentimento não é diferente: parece que paramos em 2018 só que às avessas.

2018 foi o ano das últimas eleições presidenciais. Após um processo conturbado de impeachment que afastou Dilma Rousseff, aberto sob a “égide” da moralidade e da preocupação com o fim da corrupção, “chancelado” por um crime fiscal, o Brasil voltava as urnas para escolher o chefe do poder Executivo.

A sociedade brasileira aparentava, naquela oportunidade, esgotamento com relação ao sistema político tradicional, muito desgastado pelos sucessivos escândalos de corrupção revelados pela operação Lava-Jato que atingia, principalmente, o Partido dos Trabalhadores (PT) e seu líder máximo Luís Inácio Lula da Silva além do MDB, principal aliado do partido durante o período em que governaram o país.

Típico da nossa sociedade, o brasileiro sempre aguarda a vinda de um salvador da pátria para resolver todos os nossos problemas. Naquela oportunidade, embora não apenas naquela, as queixas mais latentes eram: desempenho fraco na economia – fruto do “intervencionismo” petista – e a exacerbação da corrupção a níveis nunca antes vistos ou imaginados, também herança da gestão petista. Em suma: o adversário a ser combatido pelo Brasil era o Partido dos Trabalhadores.

Messianicamente (perdão pelo trocadilho), Jair Bolsonaro “surge” do alto dos seus 28 anos como deputado federal – com relevância próxima da nulidade – para ser aquele que conduziria este povo sofrido às glorias. Baseando-se em um estelionato eleitoral – semelhante ao que Dilma havia feito em 2014 – ancorou as lamúrias da população em dois personagens centrais: Sérgio Moro para acabar com a corrupção e Paulo Guedes para chefiar a economia.

Essa composição ainda não era suficiente para expurgar o comunismo do Brasil. Era necessário ainda que nosso “salvador” conquistasse os fiéis religiosos além dos extratos mais conservadores da sociedade – binômio dos fanáticos que encontraram no Messias, o caminho para a salvação e os bons costumes.

Armado com uma poderosa máquina de distribuição de fake news e com o ódio de boa parte da população a Lula e ao seu partido e com um candidato insosso que se submeteu ao papel de “ser” a representação do líder do partido – preso por corrupção – Jair Bolsonaro conquistava o apoio de parcelas significativas da sociedade brasileira.

O até então “desconhecido” deputado federal se tornaria o presidente do Brasil em um pleito marcado pela enorme aversão ao PT e a Lula – símbolos da corrupção do país – além da esperança de que o liberalismo econômico nos colocasse na trajetória de crescimento econômico duradouro.

A corrida eleitoral para 2022 está a todo vapor, desde a eclosão da crise sanitária, mas especialmente após a retomada dos direitos políticos de Lula, pode fazer com que Bolsonaro, que na campanha eleitoral anterior havia afirmado ser contra a reeleição, pode ser impactado pelos mesmos motivos que o alçaram à cadeira presidencial.

Boquirroto desde o início do seu mandato com uma condução no mínimo desastrosa do país durante a pandemia, o Messias vê sua popularidade diminuir – restringindo-a a fanáticos incapazes de compreender o óbvio – e um crescente descontentamento da sociedade com o atual Salvador.

Os ingredientes – ódio a alguém, economia fragilizada e casos de corrupção – são semelhantes aos que beneficiaram sua eleição; só que desta vez ao contrário. Quem ganha com isto é Lula e o PT, que definitivamente não são e nunca serão os salvadores da pátria até porque estamos nesta situação, em boa medida, pelos desmandos dos 13 anos do partido no poder.

A ausência até o momento de uma terceira opção viável faz com que o cenário político brasileiro se configure para um duelo entre Bolsonaro e Lula. Ainda não sabemos qual será o resultado deste combate, mas temos uma certeza: caso sejam estes as principais opções no pleito de 2022, quem perderá será o Brasil.