David Magalhães
David Magalhães

Professor de Relações Internacionais da PUC-SP e FAAP e coordenador do Observatório da Extrema Direita

“Torture os números e eles irão confessar qualquer coisa”, disse o escritor norte-americano, Gregg Easterbrook. O mesmo adágio valeria para alguns conceitos que, quando suficientemente torturados, gastos e banalizados passam a significar tudo e, consequentemente, nada. Quando o conceito é, também, um instrumento político de demonização do outro, um rótulo para desqualificar o adversário, aí o terreno onde paira a estabilidade semântica fica ainda mais pantanoso. Exemplo disso foram as repetidas vezes em que Geraldo Alckmin e José Serra foram chamados de fascistas. Por amor à lógica, se classificamos os dois tucanos como fascista, que termo teríamos de empregar para tipificar Jair Bolsonaro? Essa pergunta me trouxe à tona uma aula magna de Ariano Suassuna em que ele se mostrava estarrecido com a notoriedade da banda Calypso ao ponto de virar capa do caderno cultural da Folha de São Paulo. A matéria dizia que o Chimbinha era um guitarrista genial. Suassuna disse com a voz encolerizada: “Olha, eu vou dizer uma coisa. Eu sou um escritor. Um escritor brasileiro. Meu material de trabalho é a língua portuguesa. Então se você gasta o adjetivo ‘genial’ com Chimbinha, o que que eu vou dizer de Beethoven?”

Assim como ‘fascista’ e ‘genocida’, o conceito de ‘terrorismo’ tem sido frequentemente torturado para tipificar o inimigo de turno. O terrorista é, como o inferno de Sartre, sempre o outro. A lista de organizações terroristas produzida pelo governo norte-americano é um exemplo do uso discricionário e oportunista do termo. Enquanto o Talibã era um importante aliado dos EUA na Guerra do Afeganistão contra a União Soviética, os mujahedins fundamentalistas foram classificados como um “grupo de libertação nacional”, tendo sido elevados pelo presidente Ronald Reagan à “estatura moral dos pais fundadores da América”. Sim, Thomas Jefferson, Benjamin Franklin e Osama bin Laden. Teve até filme do Rambo homenageando os combatentes afegãos. Quando a aliança com o Talibã se rompeu, no início dos anos 1990, os mujahedins foram enquadrados como organização terrorista

O terrorismo tem sido empregado há pelo menos dois séculos para qualificar a ação militar de organizações estatais e não estatais de diversas colorações ideológicas. Nasce com o Terror estatal jacobino durante a Revolução Francesa e teve a guilhotina como instrumento pedagógico da recém-nascida república para criar um ambiente de intimidação psicológica contra tudo o que fosse acusado de contrarrevolucionário. Na Itália pré-unificação, o revolucionário republicano e anticlerical, Carlo Pisacane, também defendia que a propaganda armada era a forma mais eficiente de disseminar determinadas mensagens políticas. O uso da baioneta em Milão produziu uma propaganda mais eficaz do que mil livros, disse Pisacane.

Organizações populistas russas, os Narodniks, também realizaram diversos atentados terroristas contra o regime czarista. Um desses ataques chegou a matar o monarca Alexandre II. Ninguém melhor que Dostoievski, em “Os Demônios”, descreveu a atuação dessas organizações terroristas, movidas por ideologias ocidentais como o socialismo utópico, o anarquismo e o niilismo. Foi também um atentado terrorista que deu o gatilho para a Primeira Guerra Mundial, quando um nacionalista sérvio assassinou o príncipe herdeiro do Império Austro-húngaro. O terrorismo de estado atingiu seu zênite com totalitarismo stalinista e nazi-fascista. Da mesma forma, o terrorismo foi empregado, após a Segunda Guerra, por organizações de libertação nacional contra o colonialismo europeu.

O terrorismo, portanto, não tem substância ideológica apriorística: é uma tática de guerra que tem sido utilizada por organizações de esquerda e de direita, liberais e nacionalistas, reacionárias e progressistas. Após o 11 de setembro de 2001, governos, a grande mídia e até acadêmicos tentaram vincular o terrorismo ao islamismo. Além de uma abominável onda islamofóbica que se espraiou pelo Ocidente, a vinculação do terrorismo com o islamismo produziu resultados funestos do ponto de vista da segurança internacional. Robert Pape, professor da Universidade de Chicago (que, digamos, não é uma instituição de esquerda), realizou uma pesquisa em que analisou todos atentados terroristas suicidas de 1980 até 2005 e demostrou, empiricamente, que não há qualquer relação entre islamismo fundamentalista e terrorismo. Muito pelo contrário, antes do 11 de setembro, organizações marxistas, budistas e cristãs utilizaram amplamente o terrorismo suicida como tática de guerra irregular. Para Pape, o que une as organizações terroristas é um objetivo laico e estratégico: obrigar que democracias modernas retirem suas forças militares do território que os grupos terroristas consideram parte de sua pátria. Ou seja, it’s the ocupation, stupid. E o que fizeram os EUA após o 11 de setembro? Ocuparam, ocuparam e ocuparam.

A própria expressão “terrorismo islâmico” é vaga e imprecisa, mas funciona como uma formidável cortina de fumaça. Para ser tipificado como terrorista, a ação precisa, antes de mais nada, ser movida por interesses políticos. E haveria um objetivo político comum em todo o mundo islâmico? Definitivamente não. Os objetivos políticos do Hamas nada tem a ver com os do Hezbollah ou da Al-Qaeda. O Hamas nunca atacou os EUA assim como a Al-Qaeda nunca fez um atentado contra Israel. Conceber o mundo islâmico como um bloco homogêneo e monolítico é uma das patologias “orientalistas” mais comuns, como alertava Edward Said.

Entretanto, desde a derrota do Estado Islâmico na Síria e Iraque, tem sido cada vez menos frequente as notícias de atentados terroristas perpetrados por organizações jihadistas no Ocidente. No seu lugar temos observado o crescimento exponencial do terrorismo de extrema direita. De acordo com um estudo publicado pelo Global Terrorism Index, nos últimos cinco anos atos terroristas realizados por grupos de extrema direita cresceram 700%. Não raro esses atentados são interpretados, equivocadamente, como obra de lobos solitários ensandecidos. Ou seja, um problema fundamentalmente psiquiátrico.

O crescimento do terrorismo de extrema direita, no entanto, ocorre num contexto de ascensão da ultradireita global. Essa onda extremista – motivada pelo 11 de setembro, pela Grande Recessão de 2008 e pela crise de refugiados de 2013 – levou, entre outras coisas, o Reino Unido ao Brexit, Trump à presidência dos EUA, elegeu Viktor Orban, Narendra Modi e Bolsonaro. Partidos nacional-populistas, como o Vox, Alternativa para a Alemanha (AfD) e Liga Norte, saíram das franjas para ocupar o centro político nas democracias europeias. O crescimento do terrorismo de extrema direita é parte da onda ultradireitista que se espraia pelos quatro cantos do globo.

Os manifestos escritos por supremacistas brancos que realizaram atentados terroristas não deixam dúvidas de que seus projetos políticos se articulam com o movimento global de ascensão da ultradireita. Anders Breivik, que assassinou 77 pessoas na Noruega, deixou um documento com mais de mil páginas em que maldizia o multiculturalismo, a “invasão islâmica” e o globalismo. Com um tom mais biodegradável, essas posições encontram ressonância na direita populista europeia. Breivik cita 107 vezes o termo “marxismo cultural”, caro à claque bolsolavista e que não saia da boca do ex-chanceler Ernesto Araújo. O caso mais recente foi a horda de primatas trumpistas que tomaram de assalto o Capitólio para evitar a posse de Joe Biden nos EUA.

Mas o Brasil pode entrar na rota do terrorismo de extrema direita? Já está entrando. São sinais de alerta o atentado realizado por um ativista da Frente Integralista Brasileira na sede da Porta dos Fundos, o episódio do policial militar morto na Bahia, o bombeiro bolsonarista que tentou incendiar (sic) a sede do jornal Folha de São Paulo e o policial que fez refém uma comissária de bordo no Aeroporto de Guarulhos. Isolado das Forças Armadas e amarrado pelos compromissos firmados com o Centrão, Bolsonaro tem apostado no armamento da população e na cooptação das baixas patentes das polícias militares. Continua sem explicações a visita que Eduardo Bolsonaro fez a Washington no dia em que grupos de extrema direita invadiram o Capitólio. De acordo com sites investigativos nos EUA, o filho do presidente se encontrou com o empresário Michael J. Lindell, considerado um dos mais próximos conselheiros de Trump e investigado por incentivar a tentativa de golpe. Um dos jornalistas afirma que há indícios de que Eduardo participou de reuniões com o grupo “conspirador” entre os dias 4 e 5 de janeiro. Ainda sobre a invasão do Capitólio, o ex-chanceler Ernesto Araújo disse que é necessário “parar de chamar ‘fascistas’ a cidadãos de bem quando se manifestam contra elementos do sistema político ou integrantes das instituições”.

Diante de todos esses sinais, uma eventual derrota de Bolsonaro nas eleições de 2022 deve aumentar a probabilidade de grupos extremistas questionarem as instituições democráticas brasileiras por meio da violência, da propaganda armada, do terrorismo. E irão fazê-lo em nome daquilo que entendem ser a defesa da verdadeira, genuína e sacrossanta democracia, deformada pelas elites progressistas e pelas oligarquias fisiológicas. Sabemos por Shakespeare que “o diabo pode citar as Escrituras para justificar seus fins”.