Gustavo Racy
Gustavo Racy

Gustavo Racy (1988) é filósofo, antropólogo e tradutor. Doutor em Ciências Sociais pela Universidade da Antuérpia, é editor da sobinfluencia edições, autor de artigos em revistas nacionais e internacionais e organizador do livro Walter Benjamin está morto (2020, sobinfluencia).

Winfried Georg Maximilian “Max” Sebald nasceu em Oberallgäu em 1944 e morreu cedo, muito cedo, aos 57 anos em Norfolk, Inglaterra, em 2001. Sebald sofreu um derrame enquanto dirigia e faleceu antes mesmo do carro sair da estrada. É interessante como começamos a falar sobre personalidades a partir de suas datas de nascimento e morte. Interessante e, até certo ponto, inútil, porque isso não faz mais do que apresentar à audiência um nome e uma linha cronológica. Ao nomeá-las, lhe damos forma e aparência, ao lhes datarmos, implicamos sua contemporaneidade. Nada disso pode ser tão avesso ao próprio texto sebaldiano que, se algo nos ensina (e tomemos com cuidado a insígnia de que a literatura nos deva, necessariamente, ensinar algo), é que a vida é de uma intensa acronologia. Nada, na vida, está exatamente recortado pelo tempo; pelo menos, não pelo tempo da própria vida, pois a história do mundo está ligada pelo rol de vidas, calamidades e catástrofes que se desenrolam num ir e vir de intensidades que nos são acessíveis quando aumentamos nossa distância em relação aos acontecimentos. Respondamos afirmativamente às catástrofes. Não porque elas mesmas sejam boas, mas porque nos fornecem os elementos daquela barbárie positiva, nos dizeres de Walter Benjamin (1996), que podem nos permitir sobreviver à cultura. Talvez esse seja o legado maior da obra de Sebald: uma obra destrutiva, que irrompe e rompe, no céu da cultura, a ela mesma sobrevivendo.

Afinal, como o próprio autor declarou, em entrevista à rádio suíça DRS 2, episódio lembrado por Stéphane Symons, “Wir wollen das, was abgeschoben, relegiert, abgestorben ist, noch mal leben lassen”, ou seja, “Nós queremos isto: que aquilo que foi apagado, relegado, morto, possa viver novamente” (Symons, 2020, p. 15). E Sebald soube fazer isto muito bem. Àqueles que o não conhecem, vale uma nota sobre um subtítulo de um dos capítulos de uma obra dedicada a Sebald que explicita bem um dos muitos sentidos da escrita sebaldiana. Em Understanding Sebald, Mark R. McCulloh subintitula o capítulo dedicado a Os Anéis de Saturno (1995), com a frase “Sinais de uma ordem incompreensível”. É esta ordem mesma que a literatura de Sebald parece conclamar: um subtexto secreto, um limiar histórico-material que, cruzado, une todos acontecimentos da história humana, da estrutura fisiológica dos arenques (sim, os peixes), ao empilhamento de corpos massacrados em campos de concentração, da paisagem bucólica do sudeste britânico, com sua capital submersa (e vejam, cidade que cede ao lar dos arenques), à voz do nazista tornado Secretário Geral da ONU e que está gravada na sonda Voyager II, que ultrapassou os limites de nosso sistema solar e apresenta a humanidade a qualquer forma de vida extraterrestre com a qual possa se deparar.

Não há ordem, pelo menos não uma ordem compreensível. Tampouco há mero acaso e causalidade. Há o infamiliar, que habita a vida e a vida da história. O “Umheimlich” freudiano, este termo de difícil tradução, abunda nas obras de Sebald. Talvez sendo central em Vertigem (1990), o infamiliar permeia a obra sebaldiana garantindo-lhe uma posição testemunhal. Pelo Umheimlich, que desempenha um papel fundamental na livre associação, a narrativa sebaldiana é capaz de abordar a história em seu caráter fantasmático, ecoando, também, o pensamento benjaminiano ao alocar a familiaridade do estranho outro na esfera profana do mundo. Os fatos mais corriqueiros, as visões mais ordinárias, se tornam, em Sebald, elementos de uma configuração como que tirada de um sonho. A justaposição de elementos anacrônicos, selos e cartas, pinturas, fotografias, reproduzidas em meio aos textos, edifica uma narrativa em que a história se prefigura como kairológica, antes do que cronológica. Como explicita o subtítulo de Os Anéis de Saturno, uma peregrinação inglesa, que foi deixada de lado tanto na tradução inglesa, acompanhada de perto pelo autor, quanto na tradução brasileira, a peregrinação [Wallfahrt] se torna uma experiência fundamental, compartilhada entre autor e leitor, como trabalho construtivo de uma memória social, expressando o mistério das coisas. Mistério e segredo são os grandes aliados de Sebald que, em sua escrita semifictícia, exaure o ato observador ao ponto da neurose.

O texto sebaldiano, elítpico-espiral, ao invés de linear, reconfigura os nexos causais de episódios díspares que, ao fim e ao cabo, são os dados de uma história cujo elo universal é o da morte e da decomposição. Mais do que um trabalho de memória ou lembrança, Sebald lança em sua literatura um trabalho de rememoração, que é uma espécie de memória construtiva, operando pela decomposição do passado como algo naturalizado. O que se deu antes continua a se desenrolar, posto que entra na tradição da cultura em milhões de desenrolares sem ligação aparente. A descoberta desse fio condutor, que é, ao mesmo tempo, invenção, se opera na narrativa sebaldiana pela reconstrução da cumplicidade íntima, na revelação das relações um dia conhecidas que foram recalcadas, ou reprimidas, pela memória coletiva, pela própria cultura. O trabalho da linguagem e das imagens é, para isso, fundamental. Elas operam como choques que expõe o leitor à incompreensibilidade da história catastrófica do mundo humano. As imagens que transpassam os textos, são choques operativos que cortam com a razão lógico-dedutiva que esclarece a linearidade da história. É na relação texto-imagem, que o infamiliar pode, na maioria das vezes, se expressar, resolvendo ou, no mínimo, questionando os recalques e as repressões impostas pela cultura, algo que se expressa de forma vivaz, principalmente, em História Natural da Destruição (1999), Austerlitz (2001), e Os Emigrantes (1992) que, não por acaso, são obras que variam em forma, como ensaio, romance e relato, respectivamente.

Antes que esse comentário se torne um artigo acadêmico, digamos, simplesmente, que a narrativa sebaldiana é contumaz para o momento em que vivemos. Por ele, entendemos que a “atitude contemplativa” (Adorno, 2008, p. 61), não existe enquanto observação imparcial, tampouco como mimese da condição contemporânea. Vemos ali, para além de bem e mal, a longa trajetória de catástrofes que compõe a história humana, da revolução científica à reação científica que cria os campos de concentração, do nazista que apresenta a voz humana aos extraterrestres à vacina que cura a COVID-19. A inescapabilidade da secreta cumplicidade da cultura em relação a toda sua barbárie é a pedra-de-toque da literatura sebaldiana que, expõe, assim, a perda de nosso vínculo com nossa própria tradição, que, é, em suma, nossa própria cultura. Talvez, com isso, Sebald tenha sido um dos grandes escritores que conseguiu expor aquele caráter afirmativo de barbárie, como citado anteriormente, que nos preparará para sobrevivermos à própria cultura. Afinal, que fazemos, hoje, senão sobreviver?

Referências
ADORNO, T. W. 2008. “Posição do Narrador no Romance Contemporâneo”. In. Notas de Literatura I. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34.
BENJAMIN, W. 1996. “Experiência e Pobreza”. In. Magia e Técnica, Arte e Política. Obras Escolhidas I. São Paulo: Brasiliense.
McCULLOH, M. R. 2003. Understanding Sebald. Columbia: University of South Carolina Press.
SYMONS, S. 2020. “Apresentação”. In. Gustavo Racy (org.) Walter Benjamin está Morto. São Paulo: sobinfluencia edições.

Obras de W. G. Sebald publicadas no Brasil
Vertigem
Os Emigrantes
Os Anéis de Saturno
Austerlitz
Guerra Aérea e Literatura