Fabio S. Cardoso
Fabio S. Cardoso

Jornalista, produtor do Podcast Rio Bravo e autor de “Capanema”, publicado pela editora Record.

A jornalista Flávia Lima é a ombudswoman da Folha de S.Paulo. Como titular da função, sua missão é “receber, investigar e encaminhar as queixas dos leitores”, além de realizar a crítica interna do jornal; e uma vez por semana analisar a cobertura dos meios de comunicação, com destaque para a Folha de S.Paulo. O comentário da ombudswoman, no entanto, extravasa essa disposição mais técnica. Dito de outra maneira, a leitura mais atenta do noticiário permite que a audiência conheça os mecanismos internos da política, da economia e, claro, do jornalismo e de suas escolhas. O que a princípio deveria ser de interesse exclusivo de comunicólogos em geral e de jornalistas em particular torna-se, no atual estado de coisas, parada obrigatória para quem quiser estar ciente do que acontece neste Brasil que caminha para o infame número de 400 mil mortos de covid19, pouco mais de um ano que a Organização Mundial da Saúde decretou a pandemia.

Só que a importância de uma coluna como a da ombudswoman precede a pandemia.

Explico. Mesmo antes da chegada de Jair Bolsonaro à presidência da República, era possível capturar uma sensação de mal-estar entre os jornalistas e formadores de opinião: “afinal, como isso será possível?”, pareciam perguntar nos idos de 2017, quando o nome do então deputado federal já figurava entre os primeiros colocados nas sondagens eleitorais. Atentos às notícias de bastidores de Brasília e aos magos das pesquisas de opinião pública que dobravam a aposta na polarização entre PT x PSDB, os jornalistas rejeitavam a possibilidade de Bolsonaro ser um postulante competitivo à presidência da República. Com isso, os jornalistas perderam a oportunidade de compreender o fenômeno do bolsonarismo. Em vez disso, apostaram no desprezo para com o outro – por exemplo, não prestaram muita atenção no que essas pessoas tinham a dizer; em suas demandas pessoais e suas aspirações.

E quem era o outro? Aí é que está: grosso modo, o jornalismo falhou miseravelmente na tentativa de contar o que estava surgindo nas franjas da Lava Jato e na demolição da classe política entre 2014 e 2018. E aí, agora em 2021, surgem inúmeras teorias que tentam fazer a engenharia reversa do bolsonarismo. A tentativa é válida e louvável, mas a pergunta que resta é a seguinte: onde estava o jornalismo quando essa história precisava ser contada? Uma hipótese no próximo parágrafo.

Os jornais e os jornalistas estavam onde sempre estiveram: obcecados com a pauta do dia; com o exercício cotidiano de lidar com os temas que, à época, pareciam mais urgentes; e exatamente por isso não puderam capturar o tsunami que se formava, ainda que as placas tectônicas estivessem se movendo desde junho de 2013. A mídia em geral, e o jornalismo político em particular, foi condescendente com “os protestos que começavam pacíficos e que depois descambavam para a violência”. Havia ali uma tentativa de, imediatamente, enquadrar se era isso ou se era aquilo, mas sem realmente ouvir o outro. Não houve espaço para escuta.

E o resultado desse desprezo foi um amargo processo de distanciamento do jornalismo em relação a seus leitores. De repente, parece que a imprensa e os jornalistas estão defendendo a sua agenda à revelia dos interesses da população. É isso, por exemplo, que tem sido a pedra de toque dessa pandemia. Os jornalistas são percebidos como histéricos e desprovidos de empatia pelo brasileiro médio, que, por sua vez, abraça como se não houvesse amanhã toda sorte de teoria conspiratória e se engaja na ideia de que a principal emissora de TV do país está mancomunada para tirar o presidente do cargo. Quase semanalmente, aprendemos pela imprensa, o presidente está prestes a sair do cargo; que a crise se agrava; que ele vai cair. E, no entanto, ele resiste. E ainda ri. Que horas são?

Em uma de suas colunas mais recentes, Flavia Lima mostrou o tamanho desse problema. A fratura exposta é a seguinte: Bolsonaro ainda tem apoio, ainda que nas sondagens mais recentes sua aprovação seja a mais baixa desde que o seu mandato começou. Nesta semana, Felipe Santa Cruz, presidente da OAB, foi ainda mais categórico: não há clima para impeachment agora, disse, em entrevista ao Estadão. Mesmo assim, os colunistas dos grandes jornais brasileiros falam abertamente até da morte do presidente ou cogitam a possibilidade de que seu nome possa ser varrido do mapa. Jornais e jornalistas têm certeza de que seu papel é defender a frágil democracia brasileira. O drama é que, para além das dificuldades costumeiras da profissão, torna-se necessário convencer o público de sua legitimidade para tanto. Existe margem para isso? Claro que sim. Será fácil? Não tanto.

O que podemos aprender com a coluna da ombudswoman da Folha? Que ouvir o leitor é bom não apenas como estratégia marketing institucional; antes, tem a ver com não perder o pulso do que acontece no cotidiano das pequenas e grandes cidades, de suas vielas, das quebradas; com a vida das pessoas, afinal. Tivesse adotado essa receita, talvez os jornais não fossem surpreendidos em 2018 e seriam capazes de perceber uma saída neste momento difícil. A boa notícia? Só o (bom) jornalismo pode salvar o jornalismo.