Fabio S. Cardoso
Fabio S. Cardoso

Jornalista, produtor do Podcast Rio Bravo e autor de “Capanema”, publicado pela editora Record.

Como um conto de Julio Cortázar nos dá pistas para entendermos o problema do excesso de conteúdo

A editora Companhia das Letras acaba de lançar, pela primeira vez no Brasil, uma coletânea com os contos completos do escritor argentino Júlio Cortázar. Essa notícia, por si só, é digna de nota e louvor, sobretudo em uma época que a ideia de alta literatura parece pouco convencional, ou, ainda, pouco acessível. Há quem queira transformar conteúdo em arte; há quem imagine que a mensagem possa ser ressignificada, tornando-se de mais fácil compreensão; há, por fim, quem olhe para tudo isso com certo enfado – este último é o meu caso. Mas eu divago. Vou continuar o meu argumento no parágrafo a seguir.

Um dos textos de Cortázar tem como título “O fim do mundo do fim”. Como sói ao gênero conto, trata-se de uma narrativa curta – nesta edição, pouco mais de uma página. A história? Vou deixá-los com as palavras do próprio autor:

Visto que os escribas seguirão existindo, os poucos leitores que no mundo havia vão mudar de ofício e passarão também a escribas. Cada vez mais, os países serão de escribas e de fábricas de papel e tinta, os escribas de dia e as máquinas à noite, para imprimir o trabalho dos escribas.

Que o leitor não imagine Cortázar como um pernóstico. Longe disso. O termo escriba aqui assume um caráter que captura bem o espírito do tempo (e da coisa), a saber: pretensos escritores insistem em publicar, de tal sorte que, de repente, o mundo só tem autores (ou, como quer o argentino, escribas), a ponto de os livros ocuparem espaços inimagináveis, provocando acidentes automobilísticos, colapsando ecossistemas, enfim, um excesso típico de fim de mundo. Sim, estamos no campo do fantástico.

Talvez uma leitura tradicional entenderia o conto de Cortázar como uma crítica ao modelo editorial ora vigente, aquele que privilegia a indústria em vez da arte; a quantidade no lugar da qualidade; a repetição no lugar da explosão criativa. Sim, é possível. Só que, em 2021, o mundo permite outras interpretações deste texto, e uma das vantagens dos clássicos é que suas ideias se renovam, possibilitando aos leitores inovações e outras elaborações – e, sim, no parágrafo a seguir, apresento o meu.

Ler Julio Cortázar hoje em dia permite não somente que consigamos perceber o mundo ao nosso a partir da pena de um gênio da literatura. Vai além disso: agora, conseguimos estabelecer ilações com contextos que sequer existiam à época que o texto fora escrito. Se você está pensando que este texto é um exercício de imaginação e não crítica literária, acertou em cheio.

O meu ponto: o dilema deste mundo, que já não é mais o mesmo de Cortázar, tem a ver com o excesso de conteúdo, e não necessariamente dos livros. De uma hora para outra, tudo é conteúdo, de modo que não somente empresas de comunicação, veículos de mídia, o cinema, o rádio e a televisão produzem; agora, também estão os indivíduos promovendo seus cursos, seus perfis nas mídias sociais e, no topo da montanha, vídeos que formam, deformam, influenciam e exterminam a sensibilidade.

Como se dentro do enredo do Cortázar, corremos o risco de, a médio prazo, vivermos sob um regime de superexposição a produtos online de toda sorte, sem ter verdadeira confiança em nada, haja vista que já estamos cercados por YouTubers por todos os lados.

Na verdade, todos produzem conteúdo, mas ninguém parece querer ouvir o que o outro tem a dizer. Aqui vivemos no dilema de Cortázar.

O resultado não poderia ser outro: na era da informação, estamos subinformados. Pior: seguimos perversamente incrédulos, mesmo com os protocolos que chancelam a verdade. No limite, precisamos de checagem até mesmo para compartilhar informações com os nossos familiares. Não era o mundo sonhado por Tim Berners-Lee, o pioneiro fundador da internet.

Como consequência, é natural que exista a presunção de sabedoria sendo despejada a todos os seguidores. Nas mídias sociais, poucos são aqueles que assumem desconhecer o que está acontecendo, no melhor estilo pergunta honesta. Em vez disso, sobram carteiradas e argumentos de supostas autoridades, como se o “debate público” fosse uma inesgotável banca de qualificação da pós-graduação (uma das piores formas de pesadelo, a depender da sua experiência pessoal).

Grosso modo, quem confere legitimidade nessa dinâmica é aquele cuja sentença tem o apoio, ou endosso, da maioria. De acordo com a lógica das redes, o debatedor está certo à medida que tem mais seguidores, que, grosso modo, buscam não a ponderação, mas a sentença mais rápida, como se estivessem à procura de um caminho mais curto, e confortável, para o conhecimento – e este atalho não existe.

Cortázar, evidentemente, não é responsável por este instante. Mas a leitura deste conto é um exemplo de como devemos tomar cuidado com o excesso. Pode ser nocivo à nossa imaginação, à nossa capacidade de perceber o outro e, no limite, ao ecossistema do qual fazemos parte.