Tatiana Belanga Chicareli
Tatiana Belanga Chicareli

Economista formada pela PUC-Campinas, Mestre em História Econômica pela UNESP, doutora em Desenvolvimento Econômico (História Econômica) pela UNICAMP. Pesquisadora na área de Econômica comportamental e Narrativas Econômicas, com foco no período da Grande Depressão.

Os tempos hoje são outros. Durante a pandemia do Coronavírus questões antes apontadas tomam mais força. Confesso que meu interesse em Narrativas Econômicas, assim como na Economia Comportamental aumentou. Tive como, muitos de nós, oportunidades de fazer cursos on-line sobre os mais variados assuntos. Desde conceitos básicos da psicologia de Carl G. Jung até a filosofia hebraica. Esse meu “pé” na questão do ser humano, enquanto ser, enquanto comportamento, questionamento, crenças e relações não racionais nunca me deixaram confortável com a teoria econômica clássica, matemática, racional. Talvez o fato seja individual, de nunca ter me visto como puramente racional, e o tempo, e o envelhecimento, as experiências e o distanciamento contribuíram com essa percepção.

Mas indo ao que interessa, Richard H. Thaler em seu livro “Missbehaving – A construção da economia comportamental” torna acessível uma discussão que já há algum tempo permeia a pesquisa econômica. A pesquisa na área está atrelada a compreender os agentes econômicos como seres humanos, dotados de características psicológicas peculiares, humanos que não tem o cérebro de Einstein e não possuem o autocontrole de um monge budista. São pessoas que possuem paixões, telescópios defeituosos, e são estes que necessitamos claramente voltar a estudar, humanos em vez de Econs. Vários outros autores tornaram suas pesquisas em saborosas leituras, dentre eles estão: “Rápido e Devagar – duas formas de pensar” de Daniel Kahneman, “A Lógica do Cisne Negro” de Nassim Nicholas Taleb, “Animal Spitits – How Human Psychology Drives the Economy and Why it Matters for Global Capitalism” de George A. Akerlof e Robert J. Shiller, “Irrational Exuberance” e “Narrative Economics” de Robert J. Shiller, “Nudge – Improving Decisions About Heath, Wealth, and Happiness” de Richard H. Thaler e Cass R. Sunstein. Esses são alguns exemplos de que a pesquisa em Economia comportamental já está por aí há algum tempo, e que a intercomunicação entre diversas áreas de pesquisa pode trazer resultados satisfatórios e eficientes.

Quando digo eficiente, quero apontar para resultados que podem levar. Na verdade, não é função somente de criticar a pesquisa econômica clássica, mas sim de agregar inputs, tornando políticas econômicas mais eficientes, para o capitalismo enquanto sistema, para os humanos que permitem e colaboram para sua manutenção. Comprovado está historicamente que reprimir e excluir indivíduos, classes, raças ou religiões não é o caminho. E para muitos também é fato que a transição para outro sistema é, não somente utópica, como insatisfatória à luz do bem-estar geral. Qual seria então o famoso caminho do meio? O pressuposto do termo em inglês Nudge (Paternalismo libertário como foi inicialmente nomeado por Richard. H. Thaler), é que se as pessoas são humanas e não Econs, cometem erros previsíveis, estes que se passíveis de serem antecipados, podem conceber políticas que reduzam o índice de erro. Nudge, nas palavras de Thaler, são fatores supostamente irrelevantes que influenciam nossas escolhas de uma maneira que nos deixe em uma posição melhor, e seriam então efetivos para os Humanos, mas não para Econs, pois estes já estão fazendo a coisa certa. A maior parte da teoria econômica não deriva da observação empírica, é deduzida a partir de axiomas de escolha racional, tenham ou não esses axiomas qualquer relação com o que observamos na nossa vida cotidiana, portanto é totalmente natural de se imaginar que outro tipo de economia possa existir. Aquela baseada em comportamento com base empírica, não a teoria do comportamento dos Econs, esses que nem sequer existem. A atenção seria então maior ao papel dos humanos, afinal, todos gostamos de ter o direito de escolher sozinhos, mesmo que cometamos erros às vezes.

Desse modo, partimos da premissa de que em um mundo cada vez mais complicado, não se pode esperar que as pessoas sejam competentes para tomar decisões, em todos os âmbitos em que são obrigadas a escolher, sequer próximas do ideal. Seria esse então o caminho inverso? Partindo na observação do indivíduo em direção ao todo, incluindo finalmente o ser humano como agente econômico imperfeito? Essa é a aposta da Economia Comportamental e é com imenso prazer que discorro um pouco sobre ela. E para finalizar a frase de Thaler que enche de orgulho os amantes das palavras; da escrita, da leitura e da pesquisa (inclusive econômica): “Quando se lida com Humanos, as palavras importam”.