Tatiana Belanga Chicareli
Tatiana Belanga Chicareli

Economista formada pela PUC-Campinas, Mestre em História Econômica pela UNESP, doutora em Desenvolvimento Econômico (História Econômica) pela UNICAMP. Pesquisadora na área de Econômica comportamental e Narrativas Econômicas, com foco no período da Grande Depressão.

Lembro-me deste ditado (se é que posso chamá-lo assim), dito por minha falecida vó, repetida por minha mãe, e presente em meu repertório até hoje. Lendo o livro de Robert J. Shiller “Narrative Economics” foi impossível a não alusão a esta frase, mas façamos por partes.

Shiller em seu mais recente livro, “Narratives Economics” (2019), novamente percorre a intercomunicação de diversas áreas de estudos, dentre elas neurociência, psicologia e economia. A ideia central de pesquisa da Economia Comportamental, como é chamada, é utilizar outras áreas de pesquisa e incorporá-las à ciência econômica, mais especificamente na tomada de decisões de seus agentes.

Narrativas são histórias ou ideias que se espalham como doenças. Narrativas econômicas são, portanto, aquelas que afetam o comportamento econômico, tal como uma história contagiante que tem o potencial de mudar a maneira em que as pessoas tomam decisões econômicas, tais como a decisão de empregar mais trabalhadores ou esperar por tempos melhores, de arriscar em um novo empreendimento ou investir em ativos especulativos voláteis.

A história do Bitcoin é um exemplo de como uma narrativa viraliza e é extremamente contagiosa, resultando em mudanças substanciais na economia mundial.

Normalmente as narrativas econômicas revelam associações surpreendentes que carregam um caráter emocional considerável, a própria narrativa do Bitcoin traz consigo o catalizador de uma anarquia pacífica e de liberdade, particularmente porque a criptomoeda é considerada livre de controle governamental e empresarial. Mas acima de tudo, ela viraliza porque você não precisa entender o que é Bitcoin para comprar Bitcoin, e inevitavelmente muitas pessoas se interessam e compram Bitcoins porque acreditam que todo mundo atualmente faz exatamente a mesma coisa.

As narrativas, portanto, contém uma grande carga de intencionalidade, que podem somente tentar ser compreendidas, abarcando o que se passa e passava na cabeça das pessoas que fazem e fizeram parte de uma história, quais são e eram suas narrativas. Douglas North em seu mais recente livro “Understanding the Process of Economic Change” de 2005 enfatiza a importância da intencionalidade humana, essencialmente em forma de narrativas, no desenvolvimento das instituições econômicas. Paul J. Zak, um neuroeconomista demonstrou que narrativas com um toque dramático elevam o nível dos hormônios ocitocina e cortisol na corrente sanguínea de seus ouvintes, em cargas mais altas do que uma narrativa “rasa”.

Hormônios desempenham um papel importante nas tomadas de decisões, de nós, meros humanos. Não é de se surpreender, então, que compreender padrões de comportamento neurológicos faz parte da tomada de decisão de um agente econômico.

A pergunta a ser feita é porque algumas narrativas “viralizam” e outras não? É difícil dizer por qual razão isto acontece, a resposta talvez fique por conta do elemento humano que está em contato com as circunstanciais condições econômicas. Nas palavras de Hegel, a História nos ensina que a História não nos ensina nada. A existência do homem tem o seu centro na cabeça, ou seja, na razão, sob cuja inspiração ele constrói o mundo da realidade. A educação é uma arte de tornar o homem ético. Nada grandioso no mundo foi realizado sem paixão.

Narrativas são construções que misturam fatos, emoções, interesses e vários outros fatores exógenos que formam a impressão da mente humana. É aqui que entra a minha vó. Na sua ingênua frase, ela mostrava o conhecimento apresentado por David Cass e Karl Shell (1983), em que economistas se utilizavam do termo sunpots para se referirem a “ruídos” exógenos que afetavam a economia, simplesmente porque as pessoas acreditavam que afetariam. Shiller diz que essa ideia de profecia autorrealizável não vem do nada, tem origem em milhões de mutações de narrativas, algumas poderosas o suficiente para viralizar e se tornarem verdadeiras “epidemias”.

Para Shiller a causalidade existe nas duas direções, novas narrativas contagiantes influenciam eventos econômicos, assim como estes influenciam mudanças em narrativas.

A Economia, portanto, pode e tem muito o que agregar de suas colegas ciências sociais, incluindo a psicologia, antropologia e história, afinal emoções interferem na estrutura da construção de narrativas e por conseguinte na decisão econômica.

A intenção do livro, segundo o autor, é de melhorar a habilidade das pessoas na antecipação e trato de grandes eventos econômicos, tais como depressões, recessões ou estagnações de longo prazo, encorajando-os a identificar e incorporar ao pensamento as narrativas econômicas que influenciam e definem tais eventos.

A pesquisa e proposta de modelagem não é simples, é certamente muito trabalhosa no que diz respeito à “caça” aos dados em arquivos (meios de comunicação, jornais, revistas, livros, testamentos, diários e cartas) mas certamente pode instigar pesquisadores econômicos pouco mais “alternativos” a lançar um olhar para fora da caixa.

Em ambas as epidemias, medicinal e narrativa, vê-se o mesmo princípio: a taxa de contágio precisa exceder a taxa de recuperação para uma epidemia se propagar. Publicado em 2019, o livro perdeu a chance de apresentar seu conteúdo utilizando-se do exemplo de contágio pelo coronavírus (o autor usa o exemplo do Ebola). Talvez assim o livro se tornaria mais “viral” e uma tradução para o português já estivesse publicada.