Fabio S. Cardoso
Fabio S. Cardoso

Jornalista, produtor do Podcast Rio Bravo e autor de “Capanema”, publicado pela editora Record.

O jornalismo brasileiro tem um problema. Parte significativa da imprensa nacional não sabe, ou não quer, dialogar com o público evangélico. Vou trabalhar com a primeira hipótese aqui, a de que não sabe, por acreditar que os veículos não agem de má fé. Mesmo nesse caso trata-se de um impasse gigantesco, afinal, não é de hoje que o jornalismo profissional enfrenta uma grave crise de modelo de negócio, mas é neste tempo que vive talvez aquele que seja o seu maior desafio: provar-se à altura do papel de mediador do debate público junto à sociedade brasileira – e sem os evangélicos, isso não vai acontecer.

Fato: de acordo com o levantamento mais recente do IBGE, houve um aumento de 61% da população evangélica do país ao longo de dez anos. Essa presença, outrora localizada nas franjas das grandes cidades e no interior do País (o Brasil profundo), agora é parte frequente do noticiário, seja porque sua produção cultural e artística tem conquistado números significativos de audiência, seja porque, conforme diz a imprensa, existe a “bancada da Bíblia”, ou “bancada evangélica”, que eleição após eleição vem ganhando força no país. Nas eleições de 2018, essa base evangélica foi o fiel da balança para selar a chegada de Jair Bolsonaro ao poder.

Se essa base evangélica escalou de forma significativa ao longo de dez anos, por que os leitores de jornais, revistas e a audiência dos meios eletrônicos e digitais só ouviram falar desse público por ocasião da chegada de Bolsonaro ao poder?

Talvez não haja uma resposta definitiva para isso, mas é correto afirmar que houve um processo de silenciamento dessa fatia da população quanto à sua presença na mídia. Exceção feita à TV Record e suas narrativas bíblicas, a TV Globo, por exemplo, não demonstrou qualquer tentativa de dialogar com essa parcela da população em suas principais produções. Mais: personagens com esse perfil sociocultural inexistiam, ainda que a emissora tenha olhado com atenção para o surgimento da chamada “Classe C”. O que pode parecer apenas uma legítima escolha artística esconde falta de sensibilidade e de leitura comportamental: uma parcela da classe C é evangélica, de maneira que contar a história desse grupo sem atentar para sua profissão de fé torna a narrativa menos convincente.

A trama engrossa quando se observa que faltam histórias, perfis, entrevistados e debate nos jornais a propósito das muitas divisões dos evangélicos no Brasil. Na imprensa profissional, os formadores de opinião se referem a esse grupo como se fosse uma massa única e indistinta. E mesmo quando os veículos se predispõem a abordar o fenômeno evangélico o olhar é de estranhamento: sobram conceitos, teóricos da academia, análises que tomam o exemplo de fora como referência, mas não há quem tenha legitimidade para falar em seu nome, muito menos em pé de igualdade. Mais do que estigmatizados, os evangélicos são categorizados na mídia pelo olhar do outro.

Enquanto na imprensa esse espaço é rarefeito (não existem colunistas evangélicos e os mesmos jornais que se preocupam com a agenda da diversidade ignoram os assuntos ligados à religiosidade), na literatura e na academia esse tema não tem passado despercebido. Na última década, ao menos dois autores trouxeram em suas histórias elementos desse universo. Em “Luxúria”, publicado em 2015, o escritor Fernando Bonassi traz um drama marcado pela presença da retórica evangélica que é um refrão na vida do protagonista da história. Já em “Eufrates”, lançado em 2018, o romancista André de Leones mostra em um episódio como a imaginação e o comportamento podem ser transformados quando convertidos. No contexto da academia, o pesquisador Victor Araújo Augusto Silva é autor do trabalho “A religião distrai os pobres? Pentecostalismo e voto redistributivo no Brasil” e, em 2020, o autor Jairo Nicolau publicou o ensaio “O Brasil virou à direita”. Todos esses trabalhos têm o mérito de estabelecer um olhar atento para o fenômeno evangélico, tentando identificar suas nuances quando é o caso. Isso não é pouca coisa, sem dúvida alguma, mas ainda não é o bastante.

Os principais veículos da imprensa brasileira fariam um bem desmedido se ao menos tentassem compreender, sem qualquer provocação, quem são os evangélicos. É o que busca fazer a jornalista Anna Virgínia Balloussier, que tem se dedicado a cobrir esse grupo ao longo dos últimos meses. Infelizmente, é a exceção que comprova a regra, posto que no mais das vezes sobra opinião e falta apuração no sentido de identificar os interesses das lideranças, a agenda dos fiéis e, no limite, por que é que ainda apoiam Jair Bolsonaro.

A tentativa de compreender o público evangélico pode parecer a contramão da agenda racional que tem capturado a imaginação de certa intelligentsia no Brasil nas últimas décadas. Neste caso, vale a pena prestar atenção numa passagem de “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa.

“O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara a loucura. No geral. Isso é que é salvação da alma… Muita religião, seu moço! Eu cá não perco a ocasião de religião. Aproveito todas. Bebo água de todo o rio”.

Ou, dito de outra maneira, naquele que é um dos romances mais importantes da literatura brasileira no século XX, a religião não é deixada de lado. E a imprensa brasileira faria muito bem se buscasse dialogar com quem navega por esse rio. Está escrito nos clássicos.