Fabio S. Cardoso
Fabio S. Cardoso

Jornalista, produtor do Podcast Rio Bravo e autor de “Capanema”, publicado pela editora Record.

À primeira vista, um leitor informado tem a impressão de que o Grupo Globo está à beira do colapso. Senão, vejamos: do ano passado para cá, a principal emissora do país colecionou pequenas derrotas simbólicas em relação a alguns de seus produtos mais lucrativos: os direitos de transmissão de futebol (Libertadores da América e Copa América, por exemplo) e, enquanto este texto é escrito, paira certa dúvida quanto à Copa do Mundo de 2022. Ao mesmo tempo, depois de muitos anos, a Fórmula 1, o grande campeonato de automobilismo, saiu da grade de programação da família Marinho e foi para a casa dos Saad, a Band. Esse combo se encerra com dois anúncios: o fim do contrato de Fausto Silva, que depois de mais de 30 anos, deixará a emissora carioca – e faz poucos dias, os leitores descobriram que ele também fará parte do casting da Band.

Todas essas informações são públicas, assim como os números relativos ao faturamento do Grupo Globo no ano passado: o lucro líquido consolidado em 2020 foi de 167,8 milhões de reais, perfazendo uma queda de 77,7% em relação ao que foi registrado em 2019, de acordo com o jornal “Valor Econômico” em janeiro de 2021. Quando da divulgação desse montante, não foram poucos os que viram o começo do fim. Afinal, tamanha perda deve significar algo, não?

Na verdade, as coisas podem ser mais complexas do que nossas primeiras impressões desejam sustentar – e o insight a seguir veio de uma dica de um amigo, o publicitário Luiz Felipe Lazarini, que atualmente trabalha no desenvolvimento de negócios de produtores de conteúdo.

De fato, não resta dúvida de que, como se diz no jargão corporativo, o Grupo Globo está vivendo um novo momento, mais próximo do que se habitou a sinalizar como VUCA (em inglês, volátil, incerto, complexo e ambíguo). Mais do que qualquer outro grupo de mídia no país, a empresa é percebida aos olhos do público como a mais perfeita tradução do “inimigo do povo”, seja por aqueles que cerram fileiras com o presidente da República, seja por aqueles que advogam que o golpe de 2016 e a conseguinte eleição de Bolsonaro em 2018 fazem parte do mesmo realinhamento das forças conservadoras – sim, me refiro à certa esquerda e, sem dúvida alguma, à extrema esquerda.

Com efeito, esse ambiente é fomentado pela crise de credibilidade que tem alvejado a todos os grupos tradicionais de mídia, no Brasil e no exterior. O que, na primeira década dos anos 2000, era tão somente o culto do amador (para reproduzir a expressão do jornalista Andrew Keen) e a promessa de um “jornalismo cidadão”, tornou-se, pouco a pouco, no caldo de cultura que retroalimenta certa fatia da população excluída com o veneno do ressentimento. Pessoas que, de repente, começaram a duvidar de uma grande conspiração da mídia estabelecida contra o desejo do povo. Quem viveu os anos do petismo viu como esse tipo de raciocínio era uma espécie de fanfic de crítica com a assinatura da mídia alternativa, algo tão marginal que sequer fazia frente aos veículos da imprensa mainstream. Agora, cada indivíduo parece ter se transformado na agência de notícia de si mesmo: com celular em punho, espalham notícias, questionam o trabalho dos repórteres e apresentadores e têm a plena certeza de que existe um grande plano para manipulação – não se assuste: olhe em volta e você vários deles, leitor, “moreno como você”, como escreveu Drummond.

Se a narrativa dos portadores de chapéu de alumínio venceu – a de que a Globo é, sim, manipuladora e, portanto, controla todas as vontades do povo –, não é difícil entender por que a ideia de que a queda no lucro líquido parece prova incontestável da derrocada da emissora. Só que existe um outro lado que merece atenção. Talvez pela primeira vez em sua história a emissora esteja fazendo conta. Na mesma matéria que acusa a queda de faturamento, o texto aponta para uma perspectiva que não pode ser ignorada: “o grupo cortou custos e a queda no lucro foi motivada, sobretudo, pelo efeito de desvalorização do real sobre a dívida em dólar na empresa”.

Nesse sentido, todas as informações que nós, espectadores e especuladores, temos visto acerca da mudança no modelo de contratação dos artistas, roteiristas e diretores (o vínculo, na maioria dos casos, é por obra e não vitalício) é bom indício de que a emissora está se preparando para estar mais saudável e adequada para o dia seguinte.

E o que será esse amanhã?

Ninguém sabe ainda, conforme sói ao mundo VUCA. A única coisa que se sabe é que será um ambiente com mais competidores no digital. E aqui a emissora tem se organizado como ninguém no Brasil. Dito de outro modo, enquanto os outros grupos de mídia do país têm tateado no escuro em direção a esse futuro, a Globo, ainda que tardiamente, tem investido em podcasts, séries e conteúdo original on demand. Sim, o Globoplay não parece fazer frente ao Amazon Prime Video e ao Netflix. Ainda assim, está anos luz à frente de seus concorrentes locais, já assumindo, assim, uma posição dianteira em relação aos players nacionais.

Tudo somado, quer dizer que a Globo passa por um bom momento, ou que a turbulência deste instante nada mais é do que uma pequena turbulência num céu de brigadeiro? Mais do que buscar consensos absolutos, talvez devamos esperar. A Globo ainda não virou um trem fora de controle.