Marcelo Balloti Monteiro
Marcelo Balloti Monteiro

Economista formado pela PUC-SP, mestre em Economia Política pela PUC-SP, doutor em Ciências Sociais pela UNESP. Docente na Universidade Anhembi-Morumbi desde 2019 e analista setorial na Lafis Consultoria. Pesquisador nas áreas de Macroeconomia e Economia Internacional com foco em União Europeia.

O “maluco beleza” Raul Seixas já dizia em 1973 que ele preferia “ser uma metamorfose ambulante, do que ser aquela velha opinião formada sobre tudo”. Nesta mesma época, mais precisamente em 1974, Paulo Guedes ingressava no programa de mestrado em economia na Universidade de Chicago, templo do liberalismo econômico capitaneado por ninguém menos que Milton Friedman. Mas o que a música de Raul e o distinto economista tem em comum?

Tutorado e doutrinado no liberalismo econômico da segunda metade da década de 1970, Paulo Guedes é um defensor contumaz do livre mercado e das liberdades individuais relegando ao Estado um papel secundário de garantir a justiça e a propriedade privada – premissas fundamentais para o que é chamado na literatura de Estado Mínimo. Dentro deste contexto, há uma crítica não tão velada que de o setor público, em geral, é inchado e uma fonte inesgotável de privilégios; portanto reformar o Estado é palavra de ordem.

O ideal liberal encontrou abrigo no discurso do então candidato à Presidência do Brasil, Jair Bolsonaro. Não que o postulante ao cargo máximo do país fosse defensor destes ideais; pelo contrário, sempre se aproveitou muito bem das benesses que o Estado brasileiro oferece. O que importava na ocasião era incorporar o liberalismo econômico aos discursos e garantir ao sacrossanto “mercado” que a condução da economia brasileira seria pautada pelo receituário liberal; mais do que isto: quem comandaria esta empreitada seria Paulo Guedes.

Vencido o pleito de 2018, Bolsonaro prontamente adiantou-se para nomear Paulo Guedes para ser ministro do recém-criado Ministério da Economia. A pressa justificava-se: apresentar a todos, principalmente ao mercado, que o novo governo seria pautado desde a transição pelo liberalismo econômico. O Brasil estaria entrando em uma nova Era – o Leviatã seria reformado para ficar nos moldes do novo Brasil, liberal economicamente, no qual a “mão invisível” seria o guia da nossa economia. A posse de Paulo Guedes coincide com a música de Raul Seixas; o liberal inicia sua metamorfose ambulante.

A metamorfose não é ideológica; Guedes continua preso àquele liberalismo dogmático da década de 1970; ela tem sido de postura. O fato é que o economista tem ou deveria ter percebido que entre seus desejos econômicos e a aplicação prática de sua ideologia liberal, há a política e seus interesses.

Em sua primeira tentativa de implementar suas ideias, na famigerada reforma da Previdência Social, Guedes percebeu que não bastava boas intenções – se é que elas de fato existiam – mas que deveria negociar com o Congresso. Defensor, antes de mais nada dos seus interesses, os parlamentares desidrataram sensivelmente a proposta do Ministro da Economia que assistia na prática sua primeira derrota – ou meia vitória a depender do prisma que se enxerga.

Impávido, Paulo Guedes continuava sua incessante busca pelas reformas – tributária/fiscal, administrativa – que em sua visão são essenciais para que o Brasil trilhe a trajetória do sucesso econômico e promova o tão almejado desenvolvimento social. Contudo, estas reformas mexeriam com grupos de interesses mais poderosos o que as tornariam mais caras dentro do Parlamento; necessitava-se, portanto, de mais contrapartidas do Executivo para que os projetos do Ministro caminhassem.

Entre discussões e análises de projetos de reforma veio a pandemia do novo coronavírus o que inviabilizou praticamente qualquer discussão sobre reformas. O foco agora era outro: assistir aos desamparados com programas de auxílio dentro de um limite que não aumentasse ainda mais o endividamento. A visão do Ministério da Economia é que antes de liberar recursos para os que mais necessitariam, por conta da crise sanitária, a solvência do Erário deveria ser assegurada.

Novamente, Guedes foi derrotado. O Ministro batalhou para que o chamado Auxílio Emergencial fosse menor tanto em termos monetários como em extensão temporal – a preocupação era não aumentar ainda mais a dívida pública do país. Contudo, os políticos e nisto inclui-se o presidente, perceberam o potencial que o auxílio poderia dar para suas popularidades; Jair Bolsonaro despia sua faceta liberal – que nunca existiu – para encarnar o populismo barato e tosco que é praxe no Brasil.

A pandemia serviria como pano de fundo para que o populismo retornasse à cena política embora ele nunca tenha saído dela; estava apenas adormecido. A demissão do presidente da Petrobras é mais um capítulo do populismo bolsonarista; a estatal foi acusada de promover sucessivos aumentos nos preços dos combustíveis e isto exerceria enorme pressão inflacionária, o que afetava, principalmente, um grupo de interesse muito forte e que é base de apoio do atual presidente: os caminhoneiros.

A intervenção do Estado no mercado de combustível foi mais uma apunhala nas costas do liberalismo de Paulo Guedes. A sua omissão no assunto não passou desapercebida; naquele momento, evidencia-se a pior das metamorfoses que o economista poderia sofrer: de âncora econômica do governo (o famoso Posto Ipiranga), Guedes se tornava apenas um coadjuvante. O sacrossanto mercado já não vê o Ministro como sendo alguém que vai conseguir emplacar sua agenda reformista; mais: a saída dele do ministério já não é visto com tanto temor.

O que ainda mantém Paulo Guedes neste governo? O que segura um economista liberal dentro de um governo extremamente intervencionista, corporativista e populista? Talvez nunca tenhamos estas respostas. O fato é que o liberalismo ideológico de Guedes e sua condição de superministro serviram apenas para conquistar o mercado no processo eleitoral; o populismo de Bolsonaro venceu.