Marcelo Balloti Monteiro
Marcelo Balloti Monteiro

Economista formado pela PUC-SP, mestre em Economia Política pela PUC-SP, doutor em Ciências Sociais pela UNESP. Docente na Universidade Anhembi-Morumbi desde 2019 e analista setorial na Lafis Consultoria. Pesquisador nas áreas de Macroeconomia e Economia Internacional com foco em União Europeia.

O crash da Bolsa de Nova Iorque em outubro de 1929 e a consequente Grande Depressão que se instalou nos anos vindouros foi a primeira grande derrota que os economistas liberais sofreram. Impávidos pela salvaguarda da “mão invisível”, as forças de mercado jamais produziriam desemprego; se isto ocorresse seria de maneira voluntária, ou seja, aqueles desempregados assim o estariam por não aceitar um salário mais baixo. Nada mais tolo.

Havia possibilidade de existir desemprego involuntário que era causado pela insuficiência de demanda para absorver tudo que fora produzido pelo pleno emprego dos fatores de produção. A incerteza, leva o empresário a reduzir seus investimentos; com menores investimentos, a produção é reduzida; quanto menor a produção, menor a necessidade de mão de obra – aumenta-se o desemprego. Tão cristalino como isto, talvez só se hospedando em um bangalô em Bora Bora.

Keynes externou a possibilidade de desemprego involuntário já nos capítulos iniciais da Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda em 1936 e propôs soluções. Quando há insuficiência de demanda efetiva por parte dos agentes privados da economia, o Estado deveria promover políticas expansionistas (monetária e fiscal) em busca do pleno emprego.

Antes mesmo da obra magna do economista britânico, o presidente dos Estados Unidos, epicentro da crise, Franklin Delano Roosevelt implementou uma série de programas entre os anos de 1933 e 1937 para recuperar e reformar a economia do país, assolada pelas consequências da quebra do mercado financeiro – Hjalmar Schacht implementou algo semelhante na Alemanha na mesma época. Dentre as principais características do programa destaca-se um amplo programa de investimento público em obras públicas – as quais gerariam emprego e renda via efeito multiplicador.

Quase um século mais tarde, o capitalismo foi agraciado com uma crise sanitária que desencadeou uma crise econômica: a pandemia do novo Coronavírus. Embora a atual tormenta não seja decorrência de uma falha da “mão invisível” do mercado, o remédio contra o problema é o mesmo em diversos países mundo afora: aumento do gasto público, redução do custo do crédito (das taxas de juros).

Nos Estados Unidos, um novo New Deal foi proposto pelo presidente recém-eleito Joe Biden. Orçado em US$ 1,9 trilhão, o programa busca remodelar a economia norte-americana através de um amplo programa de investimentos em infraestrutura com vistas a fortalecer a indústria do país e a pesquisa, criando empregos para a classe média – classe mais afetada pela pandemia. Este sim parece ser um Make America Great Again.

A título de comparação e considerando a cotação do Dólar Americano no dia do anúncio do plano (31 de março) em R$ 5,6973, o Plano de Joe Biden vai injetar R$ 10,83 trilhões na economia; o PIB do Brasil encerrou 2020 em R$ 7,4 trilhões.

O presidente democrata buscará financiar este programa de investimentos através de uma reforma tributária que aumente o imposto de renda das empresas (de 21% para 28%) além de elevar para 21% o imposto mínimo sobre as receitas de empresas do país que atuam no exterior. Acredita-se também que haverá aumento de impostos para as classes mais abastadas. Com isto, Biden busca diminuir as desigualdades sociais dentro dos Estados Unidos, um problema que vem se acentuando ao longo dos anos.

O que se sabe sobre o plano é que dentro da primeira fase de execução, serão gastos US$ 621 bilhões na modernização da infraestrutura de transporte, US$ 300 bilhões para a indústria manufatureira do país e mais US$ 100 bilhões para a expansão do acesso à banda larga no país como um todo. Percebe-se que o objetivo é tornar a economia norte-americana mais competitiva e mais verde para enfrentar os desafios que o século XXI se apresentam.

Mesmo o liberal Milton Friedman teria proferido em 1966: “In one sense, we are all Keynesians now; in another, nobody is any longer a Keynesian”. Em 1971, o presidente Richard Nixon, liberal, teria proferido que ele era: “now a Keynesian in economics” Os Estados Unidos, defensores incontestes do liberalismo econômico, se rendem novamente ao economista britânico. Por lá, embora haja diferenças ideológicas, se faz o que deve ser feito em prol da sociedade. Já por aqui…