José Ricardo Fucidji
José Ricardo Fucidji

Doutor em Economia pela Unicamp. Professor Doutor do Instituto de Economia dessa Instituição, leciona disciplinas na graduação e no programa pós-graduação.

A seguir, Fatos. Argumentos? retoma a entrevista com o professor da Unicamp José Ricardo Fucidji. Nesta segunda parte, temos uma arguta análise sobre o papel das ideias junto ao debate econômico e, também, junto à formação dos economistas. Afora isso, o professor Fucidji responde de forma franca acerca de sua religiosidade, especificamente a propósito de sua experiência quanto à conciliação entre sua profissão de fé e a vida acadêmica. Será que existem tabus entre Igreja e Universidade?

Como destacado anteriormente, para os Editores deste site, mais do que uma entrevista, tivemos uma oportunidade de reflexão. Saímos da conversa com o professor Fucidji com mais dúvidas do que a iniciamos, como é, aliás, um dos objetivos de toda discussão que levantamos em Fatos. Argumentos?

Fábio Andrade: O quanto, de certa forma, a economia continua muito reticente a abordar ideologia de peito aberto? Segundo ponto, o senhor falou bastante sobre essa questão dos interesses que flertam um pouco com a questão da ideologia. De que modo nós podemos parar para pensar que as ideias evoluem numa velocidade, a prática em outra e, por incrível que possa parecer, muitas vezes a academia está mais flexível do que os operadores, seja do mercado financeiro, seja da indústria, seja da política?

José Ricardo Fucidji: Eu acho que faz parte da disputa de ideais, de mentalidades, você vender seu discurso como objetivo, como isento de ideologia. Onde essa estratégia brota? Em que medida ela dá certo? Ela dá certo porque você chega diante do seu auditório e diz assim: “olha, eu não estou falando de política, de interesses, não estou preocupado com isso, estou preocupado apenas com duas coisas, a ciência econômica de ponta e com o teste das minhas hipóteses contra os fatos, é o binômio teoria-modelo e econometria”. Eu já vi pessoas diante de um publico de economistas ter a coragem de dizer isso: “a minha análise não é apaixonada, é técnica, eu trago aqui a teoria de ponta de um lado e do outro lado eu trago testes empíricos de validação das minhas hipóteses”.

O que esse cidadão não está dizendo ao público, porque ele sabe, eu sei que ele sabe, que essa estratégia de argumentação naufragou em 1951. Desde 1951, essa forma de apresentar teorias não convence os especialistas. Então, ela é uma retórica de autoafirmação, é uma reinvindicação de uma objetividade científica que está desacreditada há 70 anos. Isso não é pouca coisa. Os especialistas em metodologia chamam isso de “fatos carregados de teoria”, ou seja, os dados nunca são “puros”, os dados estão manchados de teorias sempre e do outro lado, a tese da “sobredeterminação de teorias”, vocês têm sempre mais fatores determinantes do que teorias explicativas, o que quer dizer que você sempre pode montar uma teoria que explica os fatos, mas não te dá certeza de que você acertou o mecanismo causal daqueles fatos. Então, isso leva ao relativismo dos anos 1970: se você não sabe qual é a teoria certa, qualquer coisa vale. Bom, existe, no campo da filosofia da ciência, maneiras de tratar esses problemas, mas os nossos amigos fingem que 70 anos de discussão metodológica não existiram e que nós ainda temos a certeza de que os nossos modelos hipotéticos, dedutivos, os nossos testes de hipóteses econométricos dizem a verdade. A verdade é aquilo que foi proclamado por um especialista bem-informado. Eles são os arautos da verdade.

Sillas Cezar: Todos eles sabem?

José Ricardo Fucidji: Eu tenho quase certeza absoluta de que todos eles sabem. Quem viu o Samuel Pessoal estudando na praia como eu vi – estudando economia na areia da praia em Porto Seguro – pensa que ele leu tudo, que ele sabe tudo, que ele conhece tudo, mas o que ele escolhe tem a ver com as preferências dele, assim como o que eu escolho tem a ver com as minhas. Só que esses caras não podem ser acusados de ignorância. Eles são bem lidos e bem inteligentes.

Esses formadores de opinião vendem uma ciência isenta de ideologia, mas isso não tem o apoio da discussão metodológica que eles próprios conhecem. E aí eu invoco um sujeito desconhecido, um livro desconhecido, que é citado pelo Eduardo Gianetti, Subroto Roy. Roy diz uma coisa que eu acho fantástica em filosofia da ciência: “o oposto da ciência não é a ideologia, o oposto da ciência é o dogma, a ciência contém ideologia, o oposto da ciência é o dogma”. Então, o que ele propõe? Já que todo mundo tem ideologia, o melhor a fazer com ela não é arrancá-la, o melhor a fazer com ela é assumir de cara. Todo mundo assume a sua posição ideológica e nós temos um debate limpo.

Sillas Cezar: Por hipótese…

José Ricardo Fucidji: É, por hipótese. Você tem uma ideologia escondida e você vende um discurso de que você não é ideológico, então, com certeza, está “jogando sujo”. Mas a outra pergunta das diferentes temporalidades, eu cito, e você mesmo falou que usa bastante, o texto do David Colander. Eu acho que é uma questão da dinâmica da pesquisa mesmo. A pesquisa econômica busca sempre a fronteira do conhecimento, e na fronteira você tem mais liberdade para transgredir, até porque, se não for por outras razões, você precisa de uma coisa nova para publicar, você precisa apresentar algo novo, uma ideia nova para poder publicar. Então, você faz experiências e com ideias e paradigmas que você normalmente não utiliza e isso acho que explica um pouco da flexibilização do mainstream. É por isso que as ideias mudam mais rápido. É por isso que você tem uma pluralidade, ou seja, uma variedade de abordagens maior na pesquisa econômica.

Todo mundo sabe dessas coisas? Sillas, eu não sei dizer para você se é pouco ou muito, mas eu digo para você, um professor mediano sabe reproduzir aquilo que ele aprendeu. Ele não sabe ir atrás de coisas que estão sendo discutidas, de ideias novas, e vou te dizer uma coisa, hoje eu sou professor da Unicamp, mas eu já fui professor de lugares cuja biblioteca é um terror e a única fonte de informação do corpo docente e discente é uma biblioteca horrorosa. Então, nós não podemos dizer que esses professores são preguiçosos; muitas vezes eles não têm acesso e reproduzem aquilo que aprenderam.

E aí chegamos no terceiro nível, que é o da velocidade da mudança. Uma vez, numa palestra, perguntaram a um professor de economia e consultor do CADE (esse professor, Mario Possas, tinha ideias muito avançadas sobre defesa da concorrência): “o senhor tem ideias tão avançadas sobre defesa da concorrência, e o senhor foi conselheiro do CADE, só que quando o senhor era conselheiro do CADE, o senhor discutia teoria tradicional, não discutia essa teoria que está apresentando aqui. Por quê?” Aí ele respondeu assim: “os oficiais do CADE têm uma formação, a maioria deles é em direito e na área do direito, você não ensina teorias diferentes, você ensina a teoria tradicional, então, não adianta eu falar com eles outra coisa que eles não vão entender, o que eles entendem é o tradicional”.

As mudanças demoram muito mais para acontecer. Eu acho que o texto do Colander nos ajuda a organizar essas diferentes velocidades da mudança na teoria e na prática econômica.

Eu estava assistindo pela internet e me assustei quando ele respondeu isso, porque o trabalho da vida dele desde sempre, é mostrar para as pessoas que concorrência não é aquele modelo chapado neoclássico. Então, quando ele vai para o CADE, ele trabalha com aquilo, então acho que faz sentido essas diferentes velocidades da mudança na teoria econômica.

Sillas Cezar: O senhor é uma pessoa cristã. Uma pessoa religiosa dentro de um universo acadêmico científico, onde isso nem sempre é visto da melhor maneira. Eu queria introduzir o tema da religião, perguntando o seguinte: hoje o senhor acredita que os evangélicos têm talvez feito um contraponto à força da mídia? Eu pergunto isso, porque eu vejo, eu também tenho proximidade com o grupo dos evangélicos, dos presbiterianos em geral, e eu vejo uma resistência nos meus 45 anos de idade inédita ao que é divulgado na grande mídia, seja televisiva, seja jornalística.

Durante o governo Lula, houve uma rejeição muito forte à Rede Globo em geral, não do Lula, não do PT naturalmente, o Lula é mais esperto que isso, ele não ia bater frontalmente, a militância se mobilizando contra ao que eles chamavam de grande mídia. Antes teve, e o Collor falava disso, mas, assim, muito especificamente. No governo do PT, houve essa militância e agora, no governo atual, a gente vê o próprio Presidente da República empunhando bandeiras dizendo que a mídia é uma “safada sem vergonha”. Eu queria saber: os evangélicos têm de fato formado um contraponto? Isso é bom? Eu queria que o senhor falasse sobre isso.

José Ricardo Fucidji: Eu tenho um colega, com quem eu pego carona para dar aula em Campinas (e nesse trajeto conversamos sem muito compromisso), que tem uma frase ótima com a qual eu costumo rir muito, que é assim “existe uma única coisa em que a esquerda e direita estão plenamente de acordo: a Globolixo”. Mas tem uma maneira de você quebrar esse consenso que é o seguinte: os motivos pelos quais a militância do PT desacredita da Globo são diferentes dos motivos pelos quais a grande massa dos nossos irmãos evangélicos desacredita da Globo.

O motivo pelo qual a militância de esquerda desacredita é que a Globo – eu estou falando Globo, mas acho que podia falar complexo midiático em geral – é porque esses caras filtram para a população ideias equivocadas sobre direito de propriedade, sobre comunismo, sobre políticas heterodoxas. A mídia opera da seguinte maneira: nós temos que ter uma mensagem e essa mensagem tem que ser simples para o cidadão comum captar.

Eu costumava ter – porque eu parei de assistir – “ataques cardíacos” todos os dias quando eu via o Sardenberg falando que o orçamento da dona de casa e o orçamento do país são a mesma coisa. Eu tinha “ataque cardíaco” e falava assim: “por que colocam ele para falar e não colocam qualquer professor de economia, qualquer um?”. E não sei se você percebeu, não se chama mais nenhum economista, não estou dizendo de mim no caso, mas não se chama mais nenhum professor de economia para dar entrevista. Só chamam economista do Santander, só chamam economista da Tendências, só chamam esses jornalistas econômicos. Jornalista econômico é um tipo peculiar, né? O cara não conseguiu nem ser jornalista, nem ser economista. Jornalista econômico é ruim nas duas coisas e pior: ele fica consultando, fica ligando para gente e fala assim “quebra essa, fala sobre isso e tal”, só que ele não quer a sua opinião, ele já tem uma pauta e ele fica te forçando, te induzindo a entrar na pauta dele, né? Então, um dia eu falei para um jornalista assim “meu amigo, é o seguinte, se você quer a minha opinião, eu dou opinião, se você quer que eu diga o que você quer dizer, então poupa seu tempo e escreve aí o que você quer que eu fale”.

Voltando ao ponto, Sillas, e os evangélicos nessa parada toda? Eu acho que a oposição dos evangélicos à mídia é a seguinte: “nós criticamos a mídia quando a mídia afronta as nossas crenças. Afronta a nossa crença no mito. Afronta nossa crença na ineficácia das medidas contra pandemia. Aí nós atacamos a Globo. Caso contrário, nós concordamos com a Globo. Quando a Globo diz que a Dilma roubou, que teve pedalada, que Sérgio Moro é um herói, aí a gente concorda com a Globo”. Então, o jeito de você quebrar esse consenso entre esquerda e direita é o seguinte: eles odeiam a mídia, mas odeiam por motivos diferentes, né? Agora, você me diz assim “os evangélicos foram contraponto?”. Você quer dizer um contraponto cultural?

Sillas: É, porque é a primeira vez que eu vejo, de fato, o movimento contra a Globo surtir efeito. Eu converso com o Fábio Andrade sobre isso desde a graduação, a gente teve um professor, não sei se o senhor conhece o Joaquim Racy, e ele deu uma aula para gente sobre Globo e a gente tinha algumas convicções formadas sobre a emissora e aquilo meio que balançou um pouco, não sei se o Fábio se lembra, e a gente sempre fala “se a gente acha a Globo ruim, espera aí pela Record”.

José Ricardo Fucidji: Mas eu acho que a consequência ruim desse efeito que você disse que a militância anti-Globo teve é exatamente essa. Nós estamos abaixando a Globo ao nível da Record. A Globo está caindo ao nível da Record.

Sillas Cezar: O senhor acha que tem hoje uma decadência do laicismo no Brasil, professor?

José Ricardo Fucidji: Quando é que nós vamos ter Estado laico? Se todos os presidentes – inclusive o presidente autodeclarado ateu que é o Fernando Henrique Cardoso – precisam de templos? Se a Dilma Rousseff e o José Serra, que eu acredito que sejam ateus, foram à igreja durante a campanha…

Sillas Cezar: Eu vou tentar fazer a pergunta de uma outra forma. Nós estamos nos aproximando da Idade Média por conta desse avanço da não-separação entre Estado e Igreja?

José Ricardo Fucidji: Provavelmente o meu pastor seria a melhor pessoa para responder isso, porque ele acompanha o movimento evangélico e inclusive é muito crítico do movimento evangélico. Eu sou, deixa eu me apresentar aqui, Batista de formação. A Igreja Batista é uma Igreja Histórica, assim como a Presbiteriana, Luterana, Metodista e mais algumas outras que têm menor expressão no Brasil.

Então, eu fui criado naquele beabá religioso, criacionista e literalista, de ler a Bíblia de uma maneira literal e vou dizer, isso foi importante para mim. Isso me deu algumas balizas na vida, mas quando você entra na Universidade, e principalmente em um curso de humanas, as suas crenças ficam abaladas, né?
Então, a partir desse momento, eu passei a perceber duas coisas, a primeira coisa que eu percebi é que, infelizmente o que eu vou dizer agora, a formação intelectual no Brasil, não sei fora do Brasil, mas talvez por causa dessa influência norte-americana, no Brasil a formação intelectual das lideranças evangélicas é muito, muito, muito deficiente. Uma coisa que eu me tornei convencido ao longo dos anos, e hoje eu tenho plena convicção, é que as horas de estudo de qualquer Padre é muito superior às horas de estudo de qualquer pastor. E a gente está restringindo o universo aqui, as igrejas históricas, a sua, a que você foi filiado, a que eu ainda sou filiado. A formação intelectual dessas pessoas é muito deficiente, infelizmente.

O que faz com que o seu grau de abertura para outras visões de mundo, que não seja aquela visão de mundo aprendida, seja muito baixo. Como simpatizante do PT, eu já fiz discussões sobre política de esquerda e direita dentro da igreja, lá na década de 1990, né? Como professor de economia, eu já tentei quebrar alguns dogmas econômico em discussões dentro da igreja, mas é infinitamente mais difícil você levar uma discussão sobre gênero e sobre aborto dentro das igrejas. É muito difícil mesmo.

Então, quando chega ao poder um presidente como Jair Bolsonaro – que, aliás, eu aprendi que não é burro não; ele é muito esperto, pois conseguiu ler esse ambiente –, o que ele faz? “Eu vou fazer um liberalismo econômico com o Guedes, mas eu vou levantar uma pauta conservadora de costumes e vai ter uma multidão de milhões que vai me seguir e eu vou fazer esses absurdos, eu vou implementar esses absurdos”: uma ministra da mulher e dos direitos da criança que é abertamente criacionista, um ministro da educação, que é um pastor evangélico, e um cara aqui dentro de uma igreja fala que vai indicar um Ministro do Supremo, que seja “terrivelmente evangélico”. E esse terrivelmente expressa um desejo bélico, né? Um desejo de ir para briga, que é justamente o que esse pessoal quer ouvir. O que essas lideranças evangélicas querem ouvir, não só as históricas, mas ainda mais as não-históricas, as neopentecostais, o que eles querem ouvir é o seguinte “de agora em diante, a nossa visão de mundo vai ser imposta. De agora em diante, a sociedade vai ser obrigada a ouvir e a engolir a nossa visão de mundo”, por mais que ela seja equivocada, anti-fraternidade, contrária aos ensinamentos de Cristo.

Outro dia, eu conversava com uma pessoa das minhas relações que dizia para mim com muita ênfase que uma jovem que eu conheci, que hoje mora na Itália, uma jovem estava impossibilitada de engravidar, porque ela havia feito um aborto e essa pessoa não disse que era castigo divino, mas foi quase como se dissesse. E aí eu aproveitei a oportunidade e disse para essa pessoa o seguinte: “olha, veja como a discussão sobre o aborto é importante, porque se ao invés dela ter feito o aborto nessas condições, ela tivesse feito o aborto num hospital com assistência médica com assistência psicológica, hoje ela poderia ter um filho e não seria bem melhor?” e a pessoa se calou. Então, essas posturas mais obscurantistas dessas pessoas são anti-evangelho, elas podem ter o rótulo evangélico, mas ela é contra os princípios de fraternidade, de solidariedade, de amor pregados pelo Cristo.

Fabio Silvestre: Professor, vou fazer uma provocação aqui. Não falta, também por parte dos meios de comunicação, um tratamento que vai além da condescendência em relação aos grupos evangélicos?

José Ricardo Fucidji: Eu não sou o mais indicado para falar sobre essas questões de sociedade, mas eu acho, Silvestre, que falta mesmo é jornalismo de verdade. Como é que funciona o jornalismo de verdade? Penso eu, é um jornalismo que coloca para o seu público as várias visões. É lógico que o patrão, o dono do jornal, dono da rede de notícias, o dono do site, tem a visão dele, mas ele não silencia as outras vozes. Eu acho que se a mídia tivesse feito isso com os evangélicos há mais tempo, nós não estaríamos aqui. Aliás, tem equívoco que é muito comum, que aconteceu comigo na Unicamp, de achar que evangélico é uma massa homogênea. Evangélico não é uma massa homogênea.

Eu estava um dia no cafezinho lá na Unicamp. Aí, conversa vai, conversa vem, eu disse “eu sou evangélico”. Um colega vira, assustadíssimo, e me pergunta o seguinte: “então você concorda com Edir Macedo?”. Eu comecei a rir. Basta você ser evangélico, então, você concorda com tudo o que esses pastores fazem. Não, não concordo.

Fabio Andrade: O senhor falou bastante desse aspecto religioso, eu estava curioso para ouvir você em duas coisas. Tem-se muito falado e mobilizado, até para entender a questão da religião, a palavra ressentimento, o conceito ressentimento. Então, queria saber de você duas coisas: De certa forma, na sua convivência acadêmica, quais foram os pontos que estiveram no limite de criar ressentimento?

E um segundo ponto, como é que você encontrou um equilíbrio para que, de fato, isso não só não virasse ressentimento, como você pensasse fórmulas que poderiam ser evangélicas para quem, de certa forma, provoca esse ressentimento, ter uma postura mais neutra. Como é que o senhor trabalhou isso e quais seriam os apontamentos que você poderia dar?

José Ricardo Fucidji: Vou dizer o seguinte para você: acho que eu fui abençoado. É um jargão religioso, mas eu acho que eu fui abençoado, pois eis o que aconteceu: sempre fui muito curioso e, normalmente, eu preciso de foco e disciplina, porque eu fico querendo ir para muita coisa, para lados diferentes, mas sempre fui muito curioso e sempre quis aprender ler. Talvez por causa das minhas deficiências físicas, eu tenho uma perna mais curta que a outra, então, eu não sou bom para dançar, não sou bom para jogar futebol e eu tenho miopia muito elevada, o que me limita para outras brincadeiras de grupo, por exemplo. Para você ter uma ideia, o esporte que eu mais gosto é natação, que é uma atividade absolutamente individual.

Geralmente, as pessoas que têm limitações físicas vão mais para o lado dos livros. Eu fui abençoado com duas coisas: primeiro, de ter uma grande simpatia pelo conhecimento. E a segunda coisa foi que, desde criança, me foi ensinada era de que não havia nada de errado em pensar fora da cartilha. Mas aí com duas ressalvas: primeiro que você sai da cartilha, mas não sai muito, você não pode ser um herege, porém você pode pensar diferente do seu pastor. A outra ressalva é a seguinte: você pode você pode pensar diferente, mas desde que você não afronte. Então, esse era o grau de liberdade que eu tinha na infância e adolescência, você não pode colocar contra, não pode blasfemar, mas pode pensar diferente.

Um episódio de liberdade que eu tive foi com a minha avó materna, por exemplo. Ela ficava muito tempo sem ir à igreja, só ia para participar do que é o equivalente, na Igreja Católica, à Comunhão, que, na Igreja Evangélica acontece uma vez por mês, a cerimônia da Santa Ceia. Então, mensalmente, ela ia à igreja, participava da cerimônia da Ceia e voltava para casa. Eu falava assim: “Vó, você não frequenta a igreja e não te faz falta?”, ela falava assim “para ler, eu leio sozinha. Para ouvir as besteiras dos outros, eu ouço as minhas próprias besteiras”. Então, ela era muito independente, mais ou menos na linha “eu não me guio pela cabeça de outros”. O que mostra para criança o seguinte “vai chegar uma hora que você vai ser livre para ter a sua própria cabeça”.

Aí você perguntou, se teve algum momento em que eu estive no limite do ressentimento. Eu acho que não, mas a memória me trai aqui e eu lembro que meus colegas da faculdade diziam que eu praticava o trabalho de separação das esferas, do tipo assim, existe uma verdade na Igreja para mim, mas existe outra verdade na universidade para mim. Então, isso acho que foi o mais próximo que eu cheguei do ressentimento.

Esses mundos não conversam, mas eu os mantenho em gavetas fechadas. Durante a semana, eu abro a gaveta da ciência. No fim de semana, eu fecho a gaveta da ciência e abro a gaveta da religião, que será devidamente fechada no domingo à noite e eu tive a felicidade de conseguir integrar essas esferas. De que maneira? Só tem um jeito, Fábio, é você romper com a religiosidade, por exemplo, a difícil questão da literalidade da Bíblia. A Bíblia foi completada há mais de 2.000 anos, ninguém sabe quem escreveu aquelas coisas. Todas as informações acessíveis sobre a autenticidade do que foi escrito se fundamentam na tradição. É um fulano no século quarto que citou um do século terceiro, que se citou um do século segundo, que não tem a fonte original e disse assim “olha, eu ouvi dizer isso aí no século primeiro”.

Então, quando você coloca isso para um religioso ou até para um pastor, qual vai ser a reação dele? Ele vai se proteger, ele vai tentar afirmar que aquilo é a verdade. Qual é a visão que eu tenho hoje? Aquilo ali não é um documento literal, não é um mapa te dizendo assim “faça isso aqui que você vai gabaritar, você vai atingir o céu”. Por outro lado, e eu pensei muito nas outras religiões, mas, em contrapartida, essa informação da Bíblia é a única informação que os cristãos, ou seja, todos os católicos, protestantes e tal têm a respeito de Deus. Não existe outra fonte de informação para os cristãos. Então, como é que eu integrei isso? Eu integrei assim, isso aí para mim é uma orientação, mas eu estou aberto, eu me conservo silencioso sobre a veracidade documental desse negócio. Como um guia espiritual, isso aqui me serve muito bem.

Eu não sou o cara que vai sair batendo panela e falando que a palavra de Deus escrita na pedra. A minha fé em Deus e em Jesus não pode conflitar com aquilo que eu sei da ciência, entendeu? Se você parar para pensar, aquela pergunta que eu acho que vários agnósticos e reformadores devem ter feito antes de mim, a pergunta é a seguinte: e não foi o próprio Deus que quis que eu tivesse essa informação da ciência, por que que eu vou jogar fora?

Eu não acredito nisso, que a informação da ciência é uma informação contra Deus. Eu u acredito numa Graça. O que é Graça? Graça é demonstração da bondade de Deus, do amor de Deus para os seres humanos. Acredito que essa Graça se manifesta, inclusive, no conhecimento científico. Então, hoje, eu tenho menos dificuldade de integrar as coisas.

Fabio Silvestre: Professor, o que o senhor está lendo atualmente? E o que o senhor recomenda?

José Ricardo Fucidji: Eu estou lendo muita coisa. Eu tenho aqui uma listinha no Word que marca os capítulos – e nas coisas que não tem capítulo, eu marco a página, para eu não me perder. Como disse, estou lendo várias coisas ao mesmo tempo e a maior parte trata da história do pensamento econômico.

Ao mesmo tempo, um amigo me recomendou uma leitura a respeito do estoicismo. Eu fui atrás do que é esse negócio. E estoicismo é assim, uma autoajuda de elevadíssima potência.

Fabio Silvestre: Mas o estoicismo aqui é o do Sêneca ou o do Marco Aurélio?

José Ricardo Fucidji: Mas aí é que tá, o Marco Aurélio, embora ele também pregasse a vida simples, ele era um Imperador. Então, que vida simples é essa? Hipócrita, ele já foi acusado de hipócrita, porque ele era um cara que pregavam uma Filosofia austera, mas ele se beneficiou de todas as regalias do poder, né? Eu vi um comentarista falando que tanto no caso do Sêneca como do Marco Aurélio, a chave está em não dar importância à riqueza, não dar importância àquilo que se conquista na dimensão material. Então, o que eu achei que é autoajuda de alta potência no estoicismo? E aqui indico as “Meditações”, do Marco Aurélio, que é tão difícil de ler como o “Livro de Provérbios”. Eu estou lendo a edição em inglês e a tradução tem várias chaves que te falam assim: “esse mesmo verbete, você vai encontrar em outra parte do livro”. Ela tem uma espécie de índice que é uma chave de leitura, isso aí ajuda muito.

Então, por que que eu comparei as “Meditações” com “Livro de Provérbios”? Porque uma hora ele está falando de um assunto, aí ele muda de assunto, fala do mesmo assunto, por exemplo. a ignorância dos tolos, 20 página a frente, você perde o fio da meada. Mas as “Meditações” do Marco Aurélio que apresentam esse ideal, de que não existe nada fora de você que seja inerentemente bom ou mau, tudo está dentro de você, tudo está como você cuida daquilo que você permite que entre na sua cabeça.

É lógico que nós, que temos uma formação marxista ou sociológica, sabemos que existem estruturas que são externas a nós. Então, a nossa mente não é essa maravilha toda que vai transformar aquilo que é ruim em bom, mas eu acho que a mensagem do estoicismo não é essa. A mensagem do estoicismo é: “como é que você consegue lidar, de maneira digna, de maneira honesta, de maneira realista, no sentido de não se autoenganar, com as circunstâncias que você tem, por mais horrorosas que elas sejam”.

Então, eu acho que isso é uma coisa que eu recomendo: “Meditações”, do Marco Aurélio e o “Manual de Epicteto”. Embora este último tenha uma tradução horrorosa em português, é um livro bacana demais. Eu diria que isso é o que eu estou lendo de não-acadêmico.

Agora, de acadêmico, eu estou tentando correr atrás das novidades que aparecem em história do pensamento econômico. Então, assim, novas formas de ler o mercantilismo, que não é uma literatura nova, ela já tem 20 anos, mas que eu nunca incorporei ao meu acervo. Novas leituras de Adam Smith e novas leituras dos clássicos do século XIX. A pesquisa que as pessoas estão fazendo no século XX que mudam a forma da gente ver episódios da teoria econômica do século XX, então, estou correndo atrás de tudo isso aí. Mas isso não é nada, digamos assim, estranho, porque é o feijão com arroz do pesquisador. Pesquisador está o tempo todo estudando essas coisas.

Então, eu recomendaria os textos do estoicismo. Estou lendo uma coisa velha, vocês vão encontrar isso na estante virtual, “A Selva do Dinheiro”, contos sobre o horror econômico. “A Selva do Dinheiro: histórias clássicas do inferno econômico”, são textos do D.H.Lawrence, Guy de Maupassant, Anton Tchecov, F.Scott Fitzgerald, Dostoiévski, do Edgar Allan Poe, Jack London, Tolstoi, do Steneson, do Joseph Conrad, do Gogol, do Eça de Queiroz, do Kafka, do Henry James e do James Joyce. Todos os textos selecionados por Roberto Muggiati.

A temática de todos esses contos é o dinheiro, a falta de dinheiro, o que se faz pelo dinheiro, a ganância, enfim, todos eles têm a temática do dinheiro e é assim, é literatura da melhor qualidade, vocês viram os caras aqui, né? Então, essa é uma boa recomendação de literatura.

De economia, eu posso dar uma indicação já antiga também de história do pensamento econômico? Acho que os leitores vão gostar e vão ter um contato com a cabeça dos economistas com o livro “A imaginação econômica”, de Sylvia Nasar. Ela é uma autora de tendências mais liberais, mas ela começa e o tema, o fio condutor desse livro dela, é como os economistas pensaram a pobreza. A autora começa com o Dickens e passa rapidamente por Marx, vai para o Marshall e vem para o século XX, passa pelo Schumpeter também. Então, é um livro interessantíssimo, embora com esse alerta, a inclinação dela é liberal. Mas é um livro interessantíssimo de Economia, seria a coisa mais não profissional que eu recomendo, em termos de economia.

Fábio Andrade, eu ainda não li “O capital do Século XXI”, que todo mundo comentou lá atrás, só que eu ainda não li.

Fabio Andrade: Eu só não li a parte mais metodológica do “O Capital no século XXI”, porque aí é a parte mais chata, mais quadrada, que é a parte dos testes. Todo o início até ele chegar na parte nos Capítulos finais que a modelagem econométrica, é muito divertida, muito gostoso de ler. Ele escreve, surpreendentemente, muito bem para um francês, o Piketty.

José Ricardo Fucidji: Vocês já indicaram para os seus leitores o livro do Daniel Kahneman, “Rápido e devagar”? Fantástico, né? Muito divertido, muito instigante. “Rápido e devagar” é para quem gosta, mas não precisa ser economista. Mas o que ele começa a mostrar, com pesquisas experimentais, é que a mente nos engana o tempo todo. Portanto, aquele ideal do ser humano racional é uma quimera. Então, quem gostar desse assunto, quem gostar de Psicologia, quem tiver curiosidade sobre o funcionamento da mente humana, vai ganhar muito lendo o “Rápido e devagar”.